A derradeira versão de The Wall

Triunfal, glorioso, grandioso. Adjetivos que podem ser colocados, sem qualquer exagero, ao filme-concerto The Wall, que Roger Waters lançou nas salas de cinema em Setembro e que agora chegou a casa de todas as pessoas, por via das edições em DVD e Bluray.

Além do concerto, o filme leva-nos a acompanhar uma relíquia sobre rodas conduzida por Roger Waters, de Inglaterra até Itália

Além do concerto, o filme leva-nos a acompanhar uma relíquia sobre rodas conduzida por Roger Waters, de Inglaterra até Itália

A digressão que percorreu o globo entre 2010 e 2013 trouxe a derradeira rendição da histórica ópera rock que Roger Waters assinou e os Pink Floyd celebrizaram em 1979, pouco antes da saída de Waters que havia de tornar os Pink Floyd num projeto criativo de curto alcance. Roger Waters juntou nesta digressão todos os ingredientes da história que contou no álbum, tão relacionado com a sua própria condição de órfão de um órfão.

In the Flesh, um momento forte da parte final apoteótica do espetáculo

In the Flesh, um momento forte da parte final apoteótica do espetáculo

 O concerto vai sendo intercalado por fragmentos cristalinos e diálogos fundos que retratam precisamente a perda do pai ainda antes da condição de ser consciente, durante a 2ª guerra mundial, ele que já havia perdido o seu pai (o avô de Roger Waters) com apenas dois anos, durante a 1ª guerra mundial. Roger leva-nos da sua garagem em Inglaterra, até França e depois Itália, onde respetivamente foram sepultados no anonimato o seu avô e seu pai. Os traumas antigos e a ausência inspiraram o seu génio criativo para compor um dos álbuns mais importantes da história, e cuja atualidade parece ser, essa sim, irrevogável.

À medida que o estrondoso baixo que inunda todas as canções vai puxando pelo subwoofer, os lacinantes gemidos das guitarras elétricas põem à prova a mistura Dolby Atmos com que nos é servido The Wall, uma mistura multicanais que representa o passo seguinte do tratamento sonoro em cinema e nos sistemas de casa. Vale a pena pedir paciência aos vizinhos e desfrutar deste ruidoso mar de emoções musicais.

Capa do novo bluray lançado por Roger Waters

Capa do novo bluray lançado por Roger Waters

Filmado na América do Sul, o concerto aproveita em quase toda a sua duração da vibrância jovem do público do Estádio do River Plate, em Buenos Aires, que não deixa margem para dúvidas relativamente à intemporalidade da obra - as muitas panorâmicas e close-ups do público mostra quase sempre uma audiência de uma faixa etária jovem e entregue à obra prima. Para quem, como eu, vive a música como algo tão visceral e sentimental, as mais de duas horas de filme-concerto são uma montanha russa de emoções, sempre com o toque de glorioso obscurantismo com que Waters sempre refinou as suas mais geniais criações. É impossível não sentir as pálpebras a latejar nos momentos de maior densidade emocional, seja durante The Happiest Days of Our Lives, seja em Another Brick in The Wall Part III, Hey You, ou na inultrapassável Comfortably Numb, na sarcástica glorificação de In The Flesh ou, finalmente, na paranóica Run Like Hell, que nesta digressão foi amplificada e colocou estádios e pavilhões por todo o mundo aos saltos por esta ode ao poder da música.

O formato do filme é sempre arriscado. Quantos e quantos filmes-concerto já viram a luz do dia e acabaram por nem ser um filme nem um concerto? Aqui os fragmentos simples que vão sendo introduzidos entre canções não têm como objetivo o de construir um argumento complexo, mas sim o de alcançar duas metas: por um lado, trazer a memória do avô e do pai de Roger Waters e, por outro lado, o de dar uma textura de emoções, de saudade e tributo ao conjunto da obra. No fundo, o de ir trazendo a megalomania rock para o lado mais terreno e íntimo de todos nós.

Claro que a performance musical é aquela que se pode esperar num qualquer lançamento de Roger Waters. Nada menos do que a coreografada perfeição. Aconselho por isso que se instalem confortavelmente numa sala com boa acústica, que se façam rodear de um sistema de som poderoso, ponham o volume bem alto e deixem escorrer a torrente de palavras de ordem, das letras assertivas e perturbadoras, dos riffs cataclíticos e incisivos, das guitarras acústicas cristalinas e de um público completamente em êxtase. Entreguem-se, pois, ao Olimpo da música.

Este é um blu-ray 10/10.

Os elementos visuais tão nazis quanto comunistas continuam a fazer parte da narrativa rock.

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