Equívoco estrutural

A presente época do Benfica marca um regresso ao passado, e não a nenhuma mudança de paradigma. A relevância da pressão financeira já era enorme no momento em que a mais improvável renovação de contrato aconteceu - em 2013, com Jorge Jesus. Fundamentalmente, a situação que hoje se observa no Benfica não é o começo de nenhuma nova era ou da fundação de novas formas de abordar a gestão desportiva, mas sim um revisionismo pouco saudável de algo que nunca desapareceu do radar desta direção: a incompetência no plano desportivo.

Vieira consegue escolher com igual probabilidade treinadores como Jesus ou treinadores como Rui Vitória

Vieira consegue escolher com igual probabilidade treinadores como Jesus ou treinadores como Rui Vitória

De facto, não é a primeira nem a segunda vez que há um erro capital no início de uma nova era: a unipessoalidade da escolha. Numa estrutura que se diz colegial e de decisões solidárias, foi novamente um impulso único do presidente que substituiu todos os restantes diretores e profissionais do futebol na altura de escolher o seu elemento mais importante - o treinador. Numa equipa com objetivos, por muito competente que seja o que rodeia a equipa de futebol principal, o treinador é a pedra angular - a rentabilização das condições materiais e humanas à disposição, a estratégia de negócio neste particular e a mobilização de todos quantos possam, direta ou indiretamente, contribuir para o sucesso.

Não posso dizer que sou contra a escolha unilateral de um treinador, com a condição de que quem pode tomar tão grande responsabilidade tem de ser, acima de tudo, uma pessoa com um profundo conhecimento futebolístico. Quando Vieira entregou a decisão a Veiga ou mesmo em desespero a Rui Costa, Vieira entregou essa decisão a pessoas que, podendo ter falhas neste domínio, estão certamente mais capacitadas que o próprio presidente para honrar tamanha responsabilidade. Já quando Vieira decide, parece ser sempre uma forma de emitir uma mensagem e não a correspondência de uma crença mais ou menos objetiva na sua capacidade para julgar as variáveis vitais para apoiar uma decisão deste tipo. Quando chegou ao Benfica, Vieira decidiu que para contratar um treinador, poderia ir até mesmo ao ponto de definir os adjuntos. Foi uma posição de força num para-quedista que aterrava no Benfica e que à conta disso viu Mourinho voar para o Dragão depois de tentar impor Jesualdo à equipa técnica nova.

Quando tudo parecia correr mal, entregou a Veiga a responsabilidade. Concordando-se mais ou menos com o estilo e a competência, Veiga escolheu e defendeu Trappatoni quando Vieira já não acreditava (alguma vez terá acreditado?) num dos mais laureados treinadores da história do futebol, e depois escolheu Koeman que, tendo protagonizado uma época com imperdoáveis erros no plano nacional, foi responsável pelo regresso do Benfica aos grandes palcos europeus. Com tanto protagonismo reconhecido pela massa adepta dirigido a outra pessoa que não o próprio, o presidente voltou a querer mandar uma mensagem. Com Veiga afastado, foi buscar um amigo de longa data, no que é uma longa história de amizades no leque de uma escolha tão técnica como a de um treinador. Fernando Santos correu mal, o remédio que se lhe seguiu foi ainda pior e, em desespero e no que terá sido o momento mais periclitante de toda a sua presidência, encontrou Rui Costa para seu escudo. Após apenas um ano, e com um erro provavelmente ínfimo face a erros próprios, Vieira voltou a escolher sozinho, e voltou a escolher um amigo. Correu bem. Jesus ficará para sempre na história do Benfica.

É, no entanto, a exceção que confirma a regra. Saiu Jesus como nova forma de mandar uma mensagem, após o campeonato em que a responsabilidade do treinador mais evidente foi para o sucesso, quando haviam já certezas de que o presidente tinha enfraquecido bastante o plantel que Jesus teve à disposição na sua última época. A mensagem que Vieira quis enviar foi algo como: "comigo aos comandos, até uma vassoura é campeã no Benfica". Recorreu a outro amigo - Rui Vitória. Novamente, como sempre no passado (incluindo com Jesus), não se vislumbra qualquer assomo estratégico. Rui Vitória lançou jovens no Guimarães, mas mais por necessidade do que por potenciação de talento - quantos têm vingado a alto nível? Não se trata por isso por ser uma aposta na formação.

Podia-se dizer que havia um modelo de futebol consolidado na estrutura do Benfica e que por isso o treinador devia ser apenas um complemento. Mas Rui Vitória é um treinador compatível com o suposto modelo? Parece óbvio que não, e para esse modelo já era óbvio antes de entrar. Também não pode ter sido critério.

Aqui está o equívoco estrutural do Benfica, alicerçada não só numa formação insuficiente do seu principal dirigente como numa cultura de "yes men" abaixo de si, onde apenas Soares de Oliveira tem realmente poder efetivo para contrariar Vieira, desde que não seja em questões futebolísticas. E é esta estrutura acomodada - o presidente vive no Seixal como se fosse a sua casa, como uma recente reportagem nos recordou - onde parece que o Benfica é um projeto de poder pessoal onde um suposto mago sente o poder de fazer aparecer e desaparecer o Benfica por impulso, que qualquer assomo estratégico no plano desportivo não passa de uma efémera coincidência.

A aposta na formação também não tem sido bem feita. Se Jesus saiu e aposta nos jovens fora, porque não o fez na Luz? Faltaria uma direção efetiva que fosse capaz de definir o que cabe à direção definir em matéria de gestão de ativos? Novamente, a unipessoalidade. Feita a escolha do treinador, o treinador passou a ser o controlo de todo o clube. Se correu bem e assumiu protagonismo, sai e vem outro que deixe que a unipessoalidade se mantenha na esfera presidencial e não seja transferida por osmose para o escolhido. É esta a crónica da sucessão que existiu no clube no último Verão.

São quinze anos. Se não houvessem mais motivos, o perigo da caciquização do Benfica (que, aliás, não é um mero risco, mas existe como vemos nos soldados desconhecidos do presidente) devia ser suficiente para parar por aqui o reinado. O risco que o Benfica corre de se converter num projeto pessoal é idêntico ao que vemos como garantido no Porto, onde as dúvidas sobre o pós-Pinto da Costa são mais do que legítimas. E essa dependência não ocorre só em projetos de sucesso. Mesmo o insucesso crónico de Vieira pode ser difícil de ultrapassar após tanto tempo de liderança incontestada.

Há, no entanto, muitos motivos para ir mais além no pedido de mudança. Não existe capacidade de decisão colegial nem existem pessoas com conhecimento suficiente para poderem decidir sozinhas. E se após quinze anos ainda não percebeu isso, nada nos pode levar a crer que a situação se alterará por algo mais do que o mero acaso. O mesmo acaso que em 2009 trouxe seis anos de pujança desportiva. Como todos os eventos aleatórios, a probabilidade de ocorrer uma boa escolha é, no máximo, igual à probabilidade de fazer uma má escolha. E num clube como o Benfica, é incompreensível não haver trabalho para que permita elevar a probabilidade de obter o sucesso. É esta a grande insuficiência que Luís Filipe Vieira nunca ultrapassará.

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