Espanha: Portugal ao quadrado

Espanha foi ontem a eleições e tornou-se numa espécie de Portugal com esteróides: o mesmo tipo de resultados, mas com uma indefinição ainda maior.

Resultados finais - El Mundo

Resultados finais - El Mundo

Obviamente que a grande notícia da noite foi o fim oficial do bipartidismo, que cedeu em toda a linha. No núcleo forte das escolhas dos espanhóis há agora mais dois partidos de forte implementação nacional - Podemos e Ciudadanos. Pelo caminho, a UPyD, partido do centro, perdeu a sua representação parlamentar (tinha 5 deputados) e a Izquierda Unida fica reduzida a apenas 2 deputados (tinha 11). Foram também grandes vítimas dos partidos emergentes.

A equação política espanhola é tão difícil que parece surgir como natural que a opção de governo seja o PP minoritário e a ter de falar com o parlamento a toda a hora. Isto porque nem à esquerda nem à direita se conseguem óbvias maiorias, por vezes nem recorrendo a 3 e mesmo 4 formações políticas reunidas. PSOE + Podemos + IU têm apenas 161 deputados, muito longe dos 176 requeridos. PP + Ciudadanos ficam com 163 deputados, também longe. E formações independistas da Catalunha acabam por ser o bloqueio a qualquer solução maioritária, visto que recolheram um total de 17 deputados, que seriam fundamentais a qualquer um dos blocos. Os restantes partidos com assento parlamentar são o PNV (País Basco) com 6 deputados, o Bildu (País Basco) com 2 deputados e Coligação das Canárias com 1 deputado. Ou seja, mesmo juntando estes três partidos, nenhum dos blocos citados acima consegue formar maioria.

E por ser tão complicada a nova aritmética parlamentar, o PP deve voltar a governar. O partido de Rajoy acabou por resistir melhor ao desgaste do que era esperado nas sondagens das últimas semanas, e conseguiu até os deputados suficientes para ser até força de bloqueio em revisões constitucionais (117 deputados é o mínimo para ser bloqueio). A nova situação do PP é o novo paradigma do sistema político espanhol - salvo nova mudança de igual dimensão, PP e PSOE deixarão de poder contar só consigo próprios para governar Espanha.

Ainda assim, é bom não esquecer que todos os quatro partidos espanhóis, mesmo com grandes diferenças sobretudo nos programas económicos (onde vai desde o comunismo bolivariano do Podemos ao semi-liberalismo do PP), inscreveram nos seus programas grandes eixos de desenvolvimento para Espanha que são comuns e acabam por manter a tradição muito espanhola de conservação do regime e do Estado enquanto elemento decisor duradouro e não completamente sujeito aos ciclos eleitorais. Os programas de obras públicas, que têm sido fundamentais para a aceleração da economia espanhola, são disso o melhor exemplo.

O futuro do PSOE é provavelmente a maior interrogação. Era previsível, mesmo com o bipartidarismo, que o PP fosse penalizado após quatro anos duros para Espanha e que não estão ainda completamente esquecidos mesmo com o crescimento pujante que se verifica atualmente no país vizinho. Portanto, a descida do bloco de centro direita do limiar da maioria absoluta era previsível - PP e Ciudadanos ficaram com 163 deputados, e antes o PP tinha 186 deputados. Não parece uma queda gigante, e no próximo ciclo eleitoral é mais provável que volte a haver reconquista de eleitorado para este bloco, podendo disso beneficiar o Ciudadanos sem que o PP tenha de ser muito mais afetado. Houve aliás sinais interessantes, como a reconquista de Valência onde o PP parece ter conseguido regenerar-se depois de décadas de corrupção e má gestão dos dinheiros públicos.

Já o PSOE está numa situação muito pior. Num ciclo eleitoral favorável, o PSOE acabou por perder 20 deputados face à última legislatura e não aproveitar para ganhar um deputado que fosse dos perdidos pelo bloco de centro-direita (falo em blocos para facilitar comparações com o bipartidismo). Ou seja, num ciclo de maximização dos votos à esquerda, o PSOE funde-se sobre si mesmo. O Podemos já deu o abraço de urso nas eleições autonómicas de 2014, e parece ter dinâmica suficiente para continuar a provocar baixas no PSOE. Se o próximo ciclo eleitoral ditar alguma recuperação do bloco de centro direita, o PSOE poderá viver dias ainda piores.

Comparação da composição do parlamento espanhol - 2015 e 2011

Comparação da composição do parlamento espanhol - 2015 e 2011

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