I+E Tour 2015: Wow !

Chegou ao fim a digressão iNNOCENCE + eXPERIENCE que os U2 promoveram durante o ano de 2015 após o lançamento do álbum Songs of Innocente, em Setembro de 2014. É impressionante como o balanço é dos mais positivos de sempre - o conceito foi um sucesso incomparável e a banda, que já era reconhecida pelas suas prestações ao vivo, teve direito às melhores críticas da carreira.

O palco principal é minimalista como nunca. Uma grande lâmpada, igual à do quarto de Bono, é o elemento visual fundamental.

O palco principal é minimalista como nunca. Uma grande lâmpada, igual à do quarto de Bono, é o elemento visual fundamental.

Quando até a NME aceita que os U2 puseram em palco um grandioso espetáculo de Rock & Roll, é difícil aprofundar de forma a encontrar aspetos menos positivos. Talvez a estabilidade do alinhamento? Em alturas normais, diria que sim. Mas não há dúvidas que estes quatro veteranos sabem melhor do que ninguém desenhar um espetáculo Rock de início ao fim, e a estabilidade do alinhamento acabou por ser um dos pontos fortes.

Nunca tinha experimentado a sensação de entrar a apenas 30 minutos do início e ficar a um braço de distância da banda. A proximidade entre banda e espetadores foi maior do que nunca. Notou-se que a banda atravessa um momento de grande confiança no álbum que lançou e que, ao mesmo tempo, quer também dar 2h30 muito especiais a quem adquire o bilhete.

Que me lembre é a primeira digressão da banda sem direito a banda de abertura. E devo dizer que é incomparavelmente melhor do que com bandas a abrir. Nesta fase da carreira (na realidade, há muitos anos que assim é), abrir um concerto para U2 é um desafio dos maiores: a audiência espera nada menos do que U2, o que é portanto uma barreira extremamente difícil de ultrapassar. Em vez disso, a excelente escolha musical pré-concerto acaba por reinar sem ter tido concorrência prévia de uma banda de abertura. O crescimento da tensão é muito maior, sente-se a elétrica adrenalina no ar.

People Have the Power! De facto, os fãs tiveram todo o poder nesta digressão. Estiveram mais perto da banda do que nunca, foram chamados ao palco para cantar, para tocar, para saltar ou para ficar com o casaco (e os óculos) do Bono. Foram chamados a encerrar concertos em uníssono com uma banda a acompanhar (uns tais de U2). A vigorosa voz de Patti Smith num hino de gerações lançou noite após noite uma catarse coletiva a que se seguiu talvez o início mais estrondoso de concertos: Miracle, Out of Control, Vertigo e I Will Follow. Melhor abertura desde a Popmart Tour, isso é certo!

A coreografia da primeira parte foi simplesmente soberba. A narriva dos primeiros dias da banda, dos episódios que fizeram desta banda a maior do mundo. O ecrã que sobe e desce, que permite aos membros da banda tocarem lá dentro e interagirem com as próprias imagens que o ecrã vai passando. Um ecrã que relembrou o muro de Berlim, as vítimas de Dublin ou de Paris.

A ligação entre o palco principal e o secundário, sobre o qual está o imenso ecrã.

A ligação entre o palco principal e o secundário, sobre o qual está o imenso ecrã.

Não existe uma grande digressão sem grandes momentos musicais. Sem me referir a aparições pontuais de algumas canções espetaculares (Crystal Ballroom, por exemplo), esta digressão acabou por cumprir a espinhosa missão de agradar tanto aos muitos espetadores ocasionais que esperam ouvir Beautiful Day ou With or Without You, como aqueles que preferem ouvir o que há de novo. E, com um novo álbum lançado no final de 2014, o mínimo de canções novas andou pelas 6, com máximos perto de 10 canções novas no alinhamento. É obra ao fim de 35 anos de carreira!

E de facto, para mim, os grandes momentos foram mesmo as canções novas. The Miracle, sendo um single mediano (que raio de escolha!), é uma abertura fabulosa para os concertos. Enérgica, permite o coro generalizado da audiência e é tematicamente relevante para iniciar uma digressão com este nome. Iris é talvez a canção que sai mais beneficiada ao vivo. Gosto da versão do álbum, mas também não deixo de pensar que como composição é talvez a música menos conseguida de Songs of Innocence. Ao vivo, Iris ganhou a coesão que lhe faltou em estúdio - mais um exemplo de como os álbuns dos Fab-Four só são finalizados já em palco.

Cedarwood Road é uma enorme canção, como aliás se percebia já no álbum. Forte, tem tudo no tempo certo e ganha ao vivo a dimensão audiovisual que um Bono a passear pelas ruas da sua infância oferece no ecrã translúcido. O solo desta canção é um dos melhores cartões de visita de Edge: simples e muito dinâmico, cumpre com total eficácia a missão que o solo tem para desempenhar na canção - o aumento da tensão.

The Edge e Adam Clayton tocando no meio do público.

The Edge e Adam Clayton tocando no meio do público.

Ainda nas canções novas, Raised By Wolves subiu vários degraus, sobretudo porque a parte final ao piano teve o acrescento da guitarra elétrica, tocada em simultâneo juntamente com o piano pelo Edge, e que antecipa uma canção eterna, Until the End of the World, que tem nesta digressão a sua melhor roupagem de sempre. Eu já achava que esta canção era a melhor canção de rock da banda, mas o fato que vestiu em 2015 é sem dúvida o mais exuberante.

Esta foi também a digressão do regresso de Even Better Than The Real Thing à Europa, e o mix estreado em 2011 (Fish Out of The Water) reinventou esta canção - as letras e os acordes são os mesmos, mas a canção já não é a mesma de 1991! Fresca, jovem e capaz de por um pavilhão em êxtase, sucede à não menos brilhante Invisible, uma canção escondida do CD bónus de Songs of Innocence (como é que esta canção não foi o single de apresentação e nem sequer está no álbum??).

Até ao final dos alinhamentos típicos, o destaque para o sumptuoso regresso de October que antecedeu Bullet the Blue Sky, também ela revigorada e numa versão próxima dos primeiros tempos da canção. Até uma canção como Mysterious Ways, que eu dispensava em 2015, voltou a soar bem após algumas digressões onde pareceu cansada e sem chama.

O ecrã agiganta-se na divisão das duas partes do concerto e desce para o nível do público.

O ecrã agiganta-se na divisão das duas partes do concerto e desce para o nível do público.

Para já, temos três vídeos profissionais para admirar, das últimas três noites de Paris, onde além da banda na sua melhor forma, temos ainda Patti Smith (06 de Dezembro) e Eagles of Death Metal (07 de Dezembro) para coroar as respetivas noites com prestações de People Have the Power para mais tarde recordar.

Por onde andarão em 2016? ...

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