Jornalismo: procura-se, vivo ou morto

Muitas vezes nem reparamos que na era da Internet temos cada vez menos notícias nos órgãos de comunicação social. O que parece desde logo uma codificada contradição: perante a maior concorrência de sempre, a comunicação social abdica do seu objeto social primordial?

Confesso que tenho andado a matutar de forma mais preocupada na sequência de uma crónica com tanto de desassossego como de pertinência. A comunicação social hoje em dia pode não ter o exclusivo da notícia em primeira mão, do acontecimento que sai primeiro nas páginas dos jornais antes que a generalidade do público saiba. Mas não perdeu, pela sua força institucional, o papel mais importante de todos: o de ter o reconhecimento de ser o canal autorizado para notícias credíveis, abrangentes e susceptíveis de fazer evoluir as nossas democracias quanto mais não sejam pela permissão que dão a cada cidadão de formar opiniões e de se contextualizar perante uma realidade complexa e que se altera a grande velocidade.

Não advogando que a credibilidade institucional se manterá para sempre, é no entanto com substancial preocupação que olho para as páginas dos jornais ou para o alinhamento dos jornais televisivos e vejo, muito mais do que nunca, o efémero e o casuístico a ocupar os grandes espaços de divulgação do que é perene e potencialmente sistemático.

Dou por mim a pensar que a nossa comunicação social abdicou por exemplo de cumprir um papel fundamental e que a Internet cumpre ainda menos do que na certificação de notícias nacionais: o olhar do mundo. Ainda em ditadura, Portugal sofreu com o desconhecimento do mundo exterior. Vários cidadãos chegaram a ser presos porque ilegalmente cediam à tentação de sintonizar rádios estrangeiras, numa ânsia de compreenderem o mundo lá fora. E, de facto, ignorando um universo de 7.000 milhões de almas fora das nossas fronteiras estamos em primeiro lugar a diminuir o universo de 10 milhões que temos dentro delas. Se já era absurdo pensar que num mundo de gavetas geográficas os nossos 10 milhões poderiam resolver melhor qualquer problema do que qualquer solução emanada da restante população mundial, num mundo globalizado e interdependente isso será uma crença do domínio da psiquiatria.

Estamos constantemente privados de contexto europeu e mundial e estamos perante uma comunicação social infantilizada e hipocritamente optimista. Se desde sempre achei uma parolice serôdia a obrigação que os jornalistas mostravam em bajular qualquer coisa que a seleção de futebol fizesse, ainda menos compreendo que o olhar dos nossos jornais para o mundo seja apenas e só em busca de pequenos casos, maioritariamente sem relevância para o grande panorama que está por detrás disso. É mais frequente ver nos noticiários e jornais que determinado famoso comprou um chapéu de cortiça fabricado em Trás-os-Montes do que saber o que está a acontecer na Alemanha na sequência da violação massiva de mulheres indefesas em Colónia, aparentemente perpetrada maioritariamente por refugiados de guerra.

Se a comunicação social acha por bem ocultar notícias de uma magnitude daquelas, que mostram uma inumanidade imunda e desprezável, com a intenção de não provocar alarme social, está desde logo a tentar fazer o que o Estado Novo fazia: digerir tudo a 100%, e deixar às pessoas do seu país apenas os dejectos noticiosos que nada acrescentam. Como poderemos em Portugal formar uma opinião sobre a crise de refugiados, se só olhámos para ela na fase de showbiz? Enquanto foi dando imagens de escala impressionante, a comunicação social portuguesa esteve lá. Mas não soubemos que algumas ilhas gregas e italianas viram a sua economia local desabar pois quem chegava se apoderava de tudo à passagem. Não soubemos que boa parte das medidas que alguns sectores exigiam para organizar o fluxo (nem era para o limitar) resultam apenas do enquadramento legal de Schengen, como passados meses a Europa já descobriu mas que Portugal ignora. Não sabemos os problemas sociais que está a causar uma receção desordenada nos países da Europa central. Entretanto, as notícias em Portugal resumem-se à chegada de alguns carros de benfeitores endinheirados que vão trazendo uma ou outra família para cá, enquanto postam selfies no Facebook do seu grande feito humanista.

O isolamento português do mundo começa na comunicação social. O acompanhamento dado às eleições externas mais importantes para nós - as de Espanha - resumiram-se a notas de rodapé e a reporteres alegres no dia das eleições metendo conversa com bem dispostos espanhóis nas ruas de Madrid. Delas só tivemos direito a exotismo e ao multifacetado Podemos. Praticamente até ao dia das eleições, em Portugal só se conhecia o Ciudadanos na boca de um ou outro comentador mais desbocado. Não soubemos que visões os partidos tradicionais propuseram nem sequer sabemos o que causou a sua queda. Sabemos que houve para lá uns episódios de corrupção, mas nem sonhamos o que pode ter acontecido.

Entretanto os tumultos sociais continuam na Europa. Em Paris, há um imenso corredor ocupado por um bairro de lata de imigrantes sem papéis nem para onde ir - bem no centro da cidade mais visitada do mundo. Alguém sabe disto em Portugal? Na Grécia, o país afunda-se sobre os pés de barro do populismo venezuelano sem que saibamos que um país que espreitava uma tímida recuperação se está a afundar ainda mais. E por falar em Venezuela: sabem que Maduro está a negar a democracia recusando-se a reconhecer o poder de mais de 2/3 de votos dos venezuelanos contra si? Sabem sequer que há mais de 2 anos que falta comida na Venezuela, que o poder de compra real já caiu para menos de metade? Ainda conseguimos saber que houve para lá uns aumentos salariais, já não foi mau.

Nos E.U.A., limitamo-nos a receber uma caricatura da caricatura que é em si mesmo Donald Trump. Da China, toca-se levemente em alguns pânicos bolsistas. Do Brasil, poucas pessoas em Portugal terão a noção de que está a atravessar uma recessão profundíssima e sem fim à vista.

Nesta era em que a comunicação social se queixa que não encontra financiamento, talvez seja interessante perceber que isso tem sido precedido de uma demissão do papel fundamental que tem em democracia: procurar contextos. Vemos um grande escândalo levantado com a possibilidade da extrema direita governar em França mas não sabemos como é a vida dos franceses hoje em dia. Como podemos compreender o fenómeno dessa ascensão sem sabermos porque estão as pessoas a votar daquela forma? É uma informação vital, desde logo porque pode obviamente essa tendência de voto acabar com a União Europeia, que é a mais vital das nossas muletas. E também olhando apenas para dentro de portas, quem nos assegura que estamos a conseguir prevenir as causas que poderão um dia levar a uma exaltação maior dos populismos portugueses?

É nesta demissão que reside a crise da comunicação social. Portugal tem poucas notícias e cada vez mais as notícias de fora condicionam as nossas vidas. Em vez de se reforçar a dose de contexto internacional, a nossa comunicação social põe-nos a olhar para dentro, para os episódios rocambolescos da nossa pequena realidade e, quando muito, para a presença de produtos nacionais em vitrines conceituadas lá fora. Será que a comunicação social portuguesa pode almejar a sobreviver negando a mais básica das suas missões? Para já, não está a correr bem. Estamos mais provincianos do que há 20 anos atrás e isso não trouxe mais receitas para o jornalismo. Talvez valha a pena pensar nisto.

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