A inimputabilidade das precedências académicas

Quem anda ou já andou no ensino superior sabe que as precedências existem como factor de admissão em unidades curriculares e, claro, em cursos de graus superiores. Julguei importante fazer esta introdução preparada para tótós porque o mais recente fenómeno de sectarismo na política nacional decidiu, muito naturalmente, fazer tábua rasa de algo assim tão basilar.

Vem isto a propósito de Sampaio da Nóvoa, o pedante académico que se transformou em gentil folião do povo tentando saltar para a presidência da República. O candidato é extraordinário não só porque com o mesmo repentismo brande uma moca medieval contra os costumes políticos para a seguir elogiar a sua entourage jurássica, que o tem levado em ombros num caminho que tem tanto de plástico como de hipócrita.

Contrariamente a casos anteriores (Relvas e Sócrates), desta vez a comunicação social está a ignorar ostensivamente factos relevantes que vêm sendo trazidos para a opinião pública por Cândido Ferreira, um candidato que promete ficar na história desta campanha por sair tumultuosamente de debates e por expor factos sobre Sampaio da Nóvoa. Sabemos hoje que Sampaio da Nóvoa publicitava no seu currículo e nas suas biografias uma licenciatura que, confirmou ontem no debate - claramente acossado, não existe. Foi um mero curso de teatro sem relevância para atribuição deste grau.

De seguida, fez uma pós-graduação em Genebra (notável como o conseguiu não sendo licenciado) e para ser admitido em Lisboa teve de passar por um júri que decidiu que o passado académico do candidato era meritório para levar com uma bela bolsa de doutoramento, estado de subsidiação em que o candidato passou cerca de 10 anos da sua vida.

Quase todos conhecemos alguém, até mesmo nós próprios, que tenha em algum momento mudado de curso ou feito um segundo, e se tenha visto a braços com as difíceis questões que envolvem as equivalências. Para a maioria dos alunos, muitas vezes até mudar apenas de instituição e ficar no mesmo curso implica repetir tudo ou quase tudo a partir do zero.

Mas para Sampaio da Nóvoa, Miguel Relvas ou José Sócrates, isso não se coloca. Conseguiram fazer inglês técnico ou escreverem teses em francês sem conseguirem falar qualquer uma das línguas. Conseguiram licenciaturas dando em troca apenas a experiência política. Conseguiram pós-graduações em ciências da educação apresentado um curso não equiparado a licenciatura em teatro.

E perante isto, os sectários, acham que está tudo normal. Não está aqui em causa o mérito académico posterior de Sampaio da Nóvoa, mesmo não sendo eu reverente perante graus académicos, sobretudo em algumas áreas do conhecimento onde eles são muitas vezes atribuídos mais por simpatia do que pela relevância científica do que é produzido. Mas porque realmente não interessa nada. Sampaio da Nóvoa está a concorrer a Presidente da República e aquele que é o seu sucesso social, que o fez ascender a reitor da Universidade de Lisboa, faz-se por um processo nebuloso e por uma decisão arbitrária cujos fundamentos são dificilmente defensáveis quando se olha desde logo para a situação de partida do candidato.

Este caso é, para mim, muito mais grave do que o de Relvas ou Sócrates. Relvas aproveitou da licenciatura a saloiice muito instalada de que é preciso um canudo para se ser reconhecido, o que aliás é comum a muitos políticos de profissão. Sócrates não tinha de ser licenciado para ser primeiro-ministro e o que depois fez ou deixou de fazer em Paris não terá à partida consequências na vida pública, porque creio estar enterrada.

Mas Sampaio da Nóvoa é o que é por causa deste cambalacho. Fez a sua vida social no meio académico, subiu a pulso nesse meio, ganhou notoriedade com ele e até o direito de gerir uma fusão de universidades relevantes no nosso país. É, portanto, uma carreira que não era possível sem efectivamente coleccionar graus académicos, o que não era o caso de Relvas ou Sócrates. E os dois primeiros graus académicos, tão mencionados nas suas numerosas biografias, estão feridos de morte.

Confrontando com eles, Sampaio da Nóvoa reage da pior maneira possível. Dizer que deu aulas em montes de universidades de prestígio nada prova sobre uma trafulhice no início da sua vida académica, apenas prova que conseguir rapidamente alguns graus académicos superiores é a melhor forma de disfarçar a preguiça e a vergonha das etapas iniciais. Dizer que se pode ir ao currículo dele tirar as teimas é imediatamente lembrarmo-nos que, até ontem, Sampaio da Nóvoa dizia que tinha uma licenciatura em teatro. Ontem, candidamente e despudoramente, disse que nem nunca o tal curso era visto como licenciatura. Espantoso!

O sectarismo político é das coisas mais admiráveis do lado perverso do ser humano e nunca deixa de surpreender. No fim de contas, as precedências académicas só valem quando existem, precisamente como o sectarismo só acredita naquilo que quer acreditar. A realidade, essa, é uma mera conjuntura que pode ou não interceptar pontualmente a sua fé.

5 Comments:

  1. Beatriz Duarte

    Pobres de nós, estes políticos de trampa só podem estar, a gozar com a nossa cara, é uma tristeza verificarmos, o constante nivelamento pela mediocridade desta gente: Já não há paciência para tanta verborreia oca.

  2. E o Tino de Rãs ? Também não tem licenciatura ?

  3. António Costa

    Oh João Cunha, não ponha as pessoas todas no mesmo patamar, porque é feio. O sócrates e o Relvas já mostraram o que valem, mas o outro ainda não… O nosso presidente neste momento é um “BURRO” carregado de livros o que, segundo o povo, lhe dá o título de doutor e só está bem quando faz de morto, quando faz de múmia. Esse já o povo conhece. Os outros vamos dar-lhes o benefício da duvida e o povo é que sabe…

    • Sim, mas começar uma função como presidente da república com pressupostos falsos- licenciatura em não se sabe em quê – é uma tremenda vigarice!

  4. Este fica impune por ser um bem e bom falante, mentir descaradamente e terá a cobertura dos que fazem barulho, nomeadamente, da comunicação social. Sampaio da Nóvoa faz lembrar os vigaristas que por terem esse jeito,se fazem passar por advogados, médicos, engenheiros… sem que tenham habilitação para tal. Uma vergonha que lhe permite concorrer a Presidente da República. Só!…

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