Comentários Eleitorais

Fechou-se mais uma noite eleitoral. As últimas campanhas que tivemos por cá foram tão más que dou por mim quase a desejar que António Costa se aguente no Governo durante bastante tempo para não repetirmos a dose tão cedo.

505083A grande vitória da noite é obviamente de Marcelo Rebelo de Sousa. Há vários anos que eu achava que ele era o candidato ideal para o cargo mais alto da nação, porque vejo no nosso sistema constitucional que é muito mais importante a personalidade do que as ideias. Marcelo não é, como nunca foi, um candidato ideológico marcado por profundos dogmas ou ideais. Mas é alguém que, na senda de Mário Soares, pode reinventar a presidência e torná-la central no dia-a-dia da população: não por hiperatividade mas pela proximidade e compreensão.

Marcelo não foi eleito só por ser comentador. Foi eleito por ser o melhor comentador de todos. Se teve tanto palco, foi porque durante anos cativou audiências recorde para o seu comentário, tantas vezes incómodo sobretudo para o próprio partido. E isso é um mérito: era o único espaço político da televisão que conseguia eclipsar futebol ou reality shows. Não é coisa pouca. A campanha que fez é histórica: sem cartazes, comícios ou banquetes. Percebeu que a mediatização que um candidato necessita se faz pelos espaços noticiosos e não pela quantidade de confettis espalhados pelo país. Claro que a sua popularidade ajudou, mas mostra sem dúvida que as campanhas podem e devem ser muito mais humildes e com muito menos foguetório.

Logo a seguir, Marisa Matias foi uma semi-vencedora. É um enorme resultado conseguir em eleições tão particulares como as presidenciais manter o score histórico que o Bloco de Esquerda conseguiu nas legislativas. É certo que o Bloco tem uma vantagem que ainda ninguém soube desmontar – aproveita-se de causas urbanas mais ou menos incipientes para se colocar num patamar em que em vez de ser questionado, é o Bloco quem faz as perguntas. E essa liderança no discurso direto vale muitos votos. É populista e demagógico? Sem dúvida, e Marisa Matias não só não fugiu a esse traço como se atirou a ele de cabeça. Mas sem réplica de quem tem mais interesse em desmontar essa argumentação, cavalgou uma vez mais a onda, fez uma campanha super eficaz nos seus objetivos e chega ao fim com motivos para sorrir. O Bloco de Esquerda é a 3ª força política do país.

Antes de me debruçar sobre os grandes perdedores, uma nota para os candidatos festivos. Tino de Rans teve um resultado meritório. É evidente que é o Tiririca destas eleições, mas que um calceteiro consiga ser candidato a Presidente e catapultar-se para o topo da agenda mediática não deixa de ser um momento ternurento do nosso regime. Os outros candidatos conseguiram os resultados que mereciam, mais coisa menos coisa. Henrique Neto perdeu uma grande oportunidade para consolidar o seu pensamento político: ao invés de tentar ganhar todos os votos de uma franja do eleitorado descontente com a imparcialidade económica de Marcelo, acabou por usar as duas semanas de campanha para destruir a imagem precedente, que projetava um homem racional, com os pés assentes na terra e muito crítico dos modelos económicos nacionais. Um pequeno candidato dificilmente consegue ganhar votos se se dirigir às massas. Era num nicho do eleitorado que ele podia brilhar.

Para o fim deixo a digestão da complexa situação em que a esquerda portuguesa se encontra. Por um lado, a consolidação do Bloco de Esquerda parece hoje, mesmo que à custa de efémeras e incipientes causas urbanas, mais real do que alguma vez tinha sido com Louçã. Olha-se para o Bloco e vê-se uma força capaz de se alicerçar na sociedade um pouco à imagem do Podemos, em Espanha.

Mas o que podia parecer um claro sinal de expansão da esquerda em Portugal é, na realidade, um oásis num panorama que começa a sofrer brutalmente a erosão acelerada a que PS e PCP se condenaram.

Vamos por partes. O PS teve novamente uma noite catastrófica, depois de semanas catastróficas de luta interna sanguinária e a aprofundar feridas recentes. António Costa tem grandes méritos como manipulador político, mas cai em excessos que o traem. As presidenciais são disso um exemplo, e se mais provas fossem necessárias o seu discurso como Primeiro-Ministro e não como líder do PS dissiparam dúvidas sobre o desconforto.

No seu modo de agir habitual, criando uma teia de contactos e interdependências centradas em si de modo a garantirem a sua sobrevivência, acreditou que arranjar um candidato de fação seria a melhor forma de o proteger. Sampaio da Nóvoa, um insípido académico que lutou semanas para dar um ar de povo que antes sempre rejeitou, era o seu guarda-costas para Belém. A única ideia clara que conseguiu passar nestes meses foi a de proteção absoluta ao governo de António Costa, especificamente. E isso jogou contra o próprio António Costa, pois nenhum presidente pode ou deve estar preso a um governo específico – pode ter uma conceção do que julga ser melhor encontrar num governo, mas fulanizar tanto sempre o trairia. Como traiu, porque lhe reduziu o seu espaço na sociedade portuguesa.

Como o PS não se revia inicialmente em Nóvoa, a candidatura de Maria de Belém acabou por aparecer. Começou mal, eclipsando uma importante entrevista de António Costa em vésperas de legislativas, mas foi mais natural do que agora, a esta distância, parece. Órfão de Guterres e deparando-se com um estranho vindo de fora cuja principal ideia era a aliança com o PCP e o BE, boa parte do aparelho socialista entendia que alguém mais moderado e com cartão de militante devia ser o candidato a PR. O resto é história, e um dia os livros de fofoquices políticas dir-nos-ão como conseguiu Costa minar esta candidatura, fazendo até passar para a campanha de Sampaio da Nóvoa muitos dos que inicialmente a rejeitaram e clamaram por um candidato do partido – Ana Gomes é um dos mais despudorados exemplos.

Pode-se dizer que a candidatura de Maria de Belém matou o Segurismo. Mais certo é que tenha morto a ala mais à direita do PS, aquela que tornava o partido num bastião do centro-esquerda, e lança o grande debate: que PS é este? O PS dos jovens turcos e de alguns mais maduros que exacerbam frustrações com desejos de rotura coloca o partido demasiado próximo do Bloco de Esquerda. A ala mais esquerdista, que sempre existiu no eleitorado do PS, colocado tão próximo do BE vai provavelmente ser a sangria do próprio PS. Porque nesse papel, o Bloco de Esquerda leva anos de avanço e a máquina ultra populista e demagógica não é compatível com partidos moderados. A migração de eleitorados parece hoje uma inevitabilidade e a enigmática declaração de Costa sobre a derrota do populismo nas eleições de ontem parece um pálido pedido de desculpas.

Mas o caos que Costa promove para se perpetuar na liderança do seu partido não fica por aqui. Porque o PCP em convulsão vai ser uma ameaça monumental ao próprio PS. O PCP falhou redondamente pela segunda vez consecutiva. Nas eleições legislativas da maioria de esquerda, o PCP não conseguiu progredir eleitoralmente e agora nas presidenciais consegue o pior resultado da história: nem sequer terá subvenção eleitoral para a que foi a campanha mais cara de entre todos os candidatos.
Jerónimo chegou ao fim da linha, mas não é certo o que pode o PCP fazer. Se começar a jogar o campeonato de popularidade para recuperar eleitorado, o partido corre o risco de ser duplamente penalizado logo a seguir por fazer cair demasiado cedo um governo que garantiu apoiar. Mas não fazer nada pode acima de tudo perenizar a prevalência da CGTP sobre o PCP, fenómeno que está a desgastar muito o PCP e a que Arménio Carlos não parece sensível. Se durante anos o PCP usou a CGTP para ser relevante, agora é a CGTP que ordena que o PCP aja de determinado modo para se manter à tona.

Tudo somado, a esquerda tem um partido a brilhar intensamente, tem um fóssil em decomposição e um elefante numa loja de porcelana. O poder momentâneo e a rede de favores (em grande medida até familiares) pode até disfarçar, mas o PS está a ficar sem referências sociais unânimes, que era uma das suas marcas desde o 25 de Abril. Ao invés de promover figuras de unanimidade (Soares, Almeida Santos, Jorge Sampaio, entre outros), o PS vai promovendo personagens truculentas e meio trogloditas, numa tentativa de gritar mais alto que os partidos à sua esquerda mas que soa a falso, teatralizado e sem real substância. Quando o poder desaparecer, o PS talvez se aperceba que o partido está hoje dividido em dois: o centro-esquerda, dilacerado e mutilado pelo frentismo, e a fação dos turcos que coloca o PS na humilhante posição de disputar o seu eleitorado com o Bloco de Esquerda.

A estratégia de dividir para reinar de António Costa lança sérias dúvidas sobre o futuro. Os candidatos do PS somados tiveram 27% dos votos, numa noite de mínimo histórico do PCP. Se nestes 27% metade dos eleitores forem da ala esquerdista, aí está um terreno fértil que está mais do que nunca à mercê do Bloco de Esquerda.

Uma coisa é certa: se a tendência no PS for para continuar a enxovalhar o centro político, que era aliás a sua grande conquista ideológica após 1974, o PS corre o sério risco de se dividir em duas forças políticas distintas e muito frágeis ou simplesmente aceitar a conflitualidade interna e oferecer-se ao canibalismo político no espetro político de esquerda.

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