O admirável mundo dos Pedrotos made in China

Não está em causa a capacidade competitiva que o Sporting tem, gradualmente, atingido. A escolha de treinadores é, a meu ver, o maior mérito de Bruno de Carvalho até ao momento. Em três escolhas conseguir ir buscar Leonardo Jardim, Marco Silva e Jorge Jesus, demonstra acima de tudo ambição e critério.

Feita a simpática introdução, dou por mim a ver à minha volta, e em mim próprio, uma rejeição como nunca tinha visto aquele emblema. Não, não se trata de estar a ganhar (veremos...), pois lembro-me bastante bem do longínquo tempo em que o Sporting ganhou os únicos dois campeonatos das últimas três décadas, por sinal tão próximos um do outro que havia quem, de forma mais arrogante, achasse que era o início de uma dinastia. E nessa altura, apesar da normal e incontida euforia de quem andou 18 anos a seco, não havia sentimentos de rejeição generalizados. Porque o Sporting ganhava por si e não contra alguém.

A atual estratégia de trincheira é pouco percetível num clube que se arroga ter uma ampla base de apoio em Portugal. É certo que o choro tem feito parte, intrinsecamente, de ser do Sporting. Décadas de políticas desportivas desastrosas culminam num historial de "clube simpático" - aqueles clubes com história, de que toda a gente mais ou menos gosta e que de vez em quando, os marotos, fazem uma brincadeira e até ganham um título. É natural.

Já não é natural que do choro o Sporting passe à violência. Sobretudo verbal, claro está, no que parece uma estratégia muito amadora de replicar o que Pedroto instituiu no Porto. E violência intelectual, na defesa de palermices que mesmo para um normal paciente de clubite resulta num óbvio e insuperável confronto com a realidade. Várias notas:

  • O Porto partia de uma base muito regional e pequena, numa região que, como todas as outras, foi efetivamente desprezada pelo centralismo do antigo regime;
  • A hostilização dos agentes culminou com a sua efetiva intimidação, por uma razão facilmente compreensível - alguém que hostilizamos só fará o que queremos, se for forçado a isso. Daqui às décadas de corrupção, foi um passo.

Se o Sporting quer seguir esta estratégia de guerrilha em pleno século XXI, terá talvez todo o direito. Como devia ser um direito da Liga e da Federação assumirem finalmente estatutos disciplinares aos dos campeonatos onde o produto futebol é defendido, com a Premier League à cabeça.

Estou muito longe de ver êxito ou proveito potencial nesta forma de atuar:

  • Desvaloriza a marca. Alguém imagina quanto podia valer a marca Porto se, tendo ganho o que ganhou em 30 anos, tivesse conseguido uma expansão social equivalente?
  • Nunca, a não ser com claros meios intimidatórios, as meras estratégias de guerrilha valeram pontos suficientes para ser campeão. A qualidade lá dentro, regra geral, é mais forte. Não acreditam? Os penalties todos a favor do Sporting este ano resultam, sobretudo, pelo muito tempo que o Sporting passa dentro da área adversária. O que se traduz que em alguns pode, eventualmente, haver um claro erro de julgamento. Agora apliquem isso aos outros adversários...
  • É a forma ideal para ser uma massa adepta acrítica, condição prévia ao imobilismo dos clubes e uma forte ameaça para a decadência.
  • Desvaloriza o produto que ocupa o objeto social da SAD - o futebol. Ainda antes de leis ou regulamentos pugnarem por isto, deviam ser os agentes que dele dependem a protegê-lo.

É evidente que a talibanização da massa adepta do Sporting, mesmo de adeptos que sempre tomei por moderados e equilibrados, terá para o Sporting efeitos imprevisíveis. Tendo em conta os anti-corpos que estão a gerar um pouco por todo o lado, em todos os horários e tópicos de discussão, é bastante óbvio que o resultado imediato é um ciclo de encerramento sobre si próprio.

Se as condições de partida são radicalmente diferentes, copiar guerrilhas de Pedroto no Porto passa basicamente por uma chinesice de qualidade sempre duvidosa. E, já agora, não é por ter personagens rústicas como Octávio, Bruno, Inácio ou Jesus que uma estratégia rústica vai funcionar. Até para se ser rústico, é preciso saber sê-lo.

O Sporting era feito de vitórias em nome do clube e não contra ninguém. Quem há 15 anos festejou os títulos do Sporting se calhar já não se lembra. Foi muito tempo e muita garotice.

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