Estrutural é a tua tia, pá

É com incrível estupefação que se assiste por estes dias a uma discussão completamente sem sentido sobre o projeto de orçamento que o Governo português discute com a Comissão Europeia. Tudo parece girar à volta da pergunta: mas afinal, meu gasto querido, tu és estrutural ou és só orçamental?

Sejamos claros, todos os cortes temporários incidiam sobre o défice estrutural e disso todos sabiam: o país, que sabia que até 2019 havia um projeto de reposição, e a Comissão Europeia que dele tinha conhecimento via Pacto de Estabilidade. A tentativa de confundir a opinião pública confundindo conceitos como temporário e extraordinário é motivo de grande desconfiança face aquilo que nos propõe o PS e o seu criativo acordo à esquerda. É, além disso, um contributo fantástico para empobrecer ainda mais a nossa democracia pois é evidente que a maioria das pessoas no nosso país não tem capacidade de pensar por si em assuntos como estes.

Estamos perante a estrutural estupidez de vermos gente do PS a clamar por que se considerem os cortes temporários do passado como défice estrutural. Mas qual défice, se não houve o gasto? Querem registar gastos que não existiram, que não foram reconhecidos e que não serão liquidados? Ou é uma guerra na lama para tentar que a Comissão Europeia feche os olhos e não conte como despesa estrutural algo tão estrutural como salários?

O nível de idiotice é tão grande que de muita gente até já fico com dúvidas sobre se será só má fé e/ou seguidismo cego, ou se revela tão só todo um novo nível de estrutural analfabetismo funcional. As contas são um empecilho - como seria bom se as pudessem eliminar para sempre ao mesmo tempo que estendem o chapéu para colher mais esmolas de outros países e instituições de que entretanto vão insultando de alto a baixo.

O PS, que muitos meses antes das eleições apresentou um programa macro-económico que já era duvidoso, passou a campanha a promover ideias que não colavam sequer com o seu programa económico. Para chegar ao Governo, rasgou o programa macro-económico (que já era estruturalmente duvidoso), rasgou a estrutural bonomia e impreparação de Costa durante a campanha, e avançou ainda mais para um estrutural irrealismo que, claro, não cola com a realidade. Não satisfeitos, tentaram recalcular o défice estrutural como se a Comissão Europeia, UTAO, CFP, bancos e agências de rating não detectassem com grande facilidade tão infantil tentativa de saloia intrujice. Há certamente uma perda que já é definitiva: nem que abracem a realidade e as boas contas conseguirão recuperar a credibilidade já perdida com grande estrondo e no pátio dos mais crescidos.

É bastante triste que o PS esteja transformado num ícone de sectarismo - quiçá um dos motivos para o desgaste do PCP? Isto do sectarismo tem quotas apertadas e não dá para sobreviverem três partidos de igual matriz. A desonestidade intelectual da entourage de Costa só encontra paralelo no estrutural desprezo do Primeiro-Ministro pela preparação, pelo estudo e pelos números. Para Costa, tudo o que não seja forma, é uma questão técnica. Para o lero-lero, a palavra de circunstância ou a promessa vazia, Costa aparece e vem inundar os corações que pediam política. A política estéril, pois claro, pois a política como nobre arte da gestão civilizacional faz-se de várias disciplinas que Costa não domina.

Na realidade, não domina nada. Tudo são tecnicalidades, dossiers sem importância, números que podem quer dizer tudo e o seu contrário, coisas menores. Não quer saber deles, não vai querer saber e mostra até uma estrutural raiva a quem queira saber. O ataque mais vertical e substantivo ao Primeiro-Ministro veio de Passos Coelho nos últimos dias. Estamos tão inundados de espuma e de balelas estruturais que nem se deu o devido relevo. Disse o líder do PSD que se devia deixar de considerar tudo como questão técnica para passar a conhecer de facto os dossiers. António Costa está a inaugurar uma nova forma de gerir um país: não conhecendo nada. De facto, a ignorância é a melhor forma de nunca nada correr mal. Pelo menos aos olhos de quem é estruturalmente ignorante e de uma beligerância narcísica.

É este o país de Costa. Um país onde o sectarismo tentacular apenas serve o propósito de alimentar o pagode para segurar lugares. Mesmo os lugares dos mais estruturalmente impreparados da história da nossa política. O pior é que o partido que justamente ostentava a reputação de ser o mais europeísta do país está conscientemente a abrir alas para o anti-europeísmo militante que pode destruir por completo o nosso país, sempre tão dependente de ajudas, empréstimos e financiamento exterior, em particular da União Europeia. É preciso ser-se um troglodita estrutural para insistir nesta estratégia.

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