Porque não há um diretório de pensamento único na EU e nos mercados

À hora a que escrevo, Portugal recuou 24 meses na sua posição de mercado. Cerca de dois meses após a tomada de posse do original governo português – é original desde o seu apoio parlamentar à natureza familiar do seu elenco – Portugal já paga juros similares ao período em que ainda estava sob programa da Troika.

Deve destacar-se que este máximo de 24 meses ocorre menos de um ano depois do início do Quantitative Easing do Banco Central Europeu, que alguns políticos diziam ser plenamente responsável pela recente descida dos prémios de risco da República. Ora, mesmo com o QE a todo o vapor, Portugal já paga juros mais elevados do que 12 meses antes de ele se ter iniciado. Não deviam ser tiradas conclusões rapidamente?

Isto leva-me à segunda questão, da dependência dos mercados, e do porquê de ser totalmente falso que haja um diretório de pensamento único na União Europeia e nos ditos mercados.

O acesso aos mercados é 100% voluntário por parte dos países, e essa autonomia de poder decidir se se recorrem a empréstimos é inalienável seja por que tratado da União Europeia for. É uma soberania plena, que não está sequer sujeita a discussão num qualquer Eurogrupo.

Quando a demagogia e o populismo nos dizem que não há alternativa na Europa, dizem-no com base num pressuposto: que os países pretendem manter os privilégios do acesso ao endividamento, sem quererem correr os riscos que lhes são inerentes. Dito de outro modo, os políticos escondem que a decisão soberana que cabe aos países, como a cada de um nós nas nossas vidas privadas, é se querem correr algum risco de financiamento, em que grau o querem correr ou se, por outro lado, pretendem isolar-se dos mercados financeiros e viverem apenas e só com o que têm no momento presente.

Esta é que é a decisão de soberania. O que limita a soberania e a capacidade de tomar opções diferentes é a partir do momento em que a decisão soberana é tomada: assumir um risco de financiamento, assumir endividamento.

A partir daqui, como acontece com qualquer indivíduo, as escolhas obviamente são menores – porque a grande escolha já foi tomada antes, em total liberdade. Não é possível crescer o endividamento despreocupadamente ou não dar sinais com a credibilidade que os credores julguem necessária, e esperar que as portas desses financiamentos se mantenham abertas. O mesmo vale para a zona Euro: se há regras comuns, é precisamente no pressuposto de se poder guiar o mercado dentro de padrões comportamentais expectáveis por todos, previsíveis e, por isso, confiáveis.

Prevendo uma onda de contestação da esquerda estéril aos demoníacos mercados, não posso deixar de exigir que os governantes de uma vez por todas assumam que as escolhas soberanas estão antes do acesso ao mercados: estão precisamente na assunção ou não dos riscos que esse acesso comporta.

Quem não gosta dos mercados ou até da Zona Euro, tem um óptimo remédio: ajustar as suas contas de modo a gastar só o que tem. Se não houverem défices, não há necessidade de pedir mais dinheiro emprestado.

Já se a decisão que querem tomar é não equilibrar receitas com gastos e ao mesmo tempo exigir condições ideais de financiamento, devo realçar que o mundo das maravilhas da Alice é uma realidade ficcionada.

Eu, como sempre, dou a minha opinião: quero uma zona monetária única, com regras comuns e apertadas (porque eu também preciso de confiar nos outros países, não são só eles em nós), com um progressivo avanço no federalismo europeu. E, relativamente aos mercados, não defendendo que um país tenha de se contentar sempre e apenas com o que tem para gastar no momento, defendo o recurso a financiamento externo pelo que devemos ser responsáveis para nos mostrarmos confiáveis aos investidores externos. Acredito que podemos crescer mais com financiamento externo do que abdicando dele.

Não podemos é querer tudo e o seu contrário. Ou queremos soberania plena e cega, abdicando dos mercados e baixando brutalmente as despesas do Estado, ou aceitamos uma partilha de soberania e, não baixando tão brutalmente as despesas do Estado, mostramos moderação. Gastar à tripa forra, prever receitas e gastos que toda a gente sabe que não vão ocorrer e esperar pagar 2% de taxa de juro a 10 anos, é uma brincadeira de crianças, para recuperar uma expressão que ganha hoje um sentido reforçado.

Idiotas que tentam convencer a população que podemos alinhar na brincadeira de crianças deviam ter vergonha de se aproveitarem da baixa literacia económica da população para comprar votos. Basta a DBRS baixar a notação da República em Abril (quando, a este ritmo, já teremos juros superiores a 5%, outra vez), e nessa altura ficamos com os depósitos controlados. Faz lembrar algum populismo mediterrânico recente? Acho que sim, não me lembro é qual ...

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