Eixo Ferroviário Centro – Norte e jornalismo anti-esclarecimento

O Público é um dos poucos jornais nacionais que tem alguém que sabe efetivamente do que fala no que toca a caminhos de ferro. Mas também tem uma das muitas pessoas que vagueia pelo setor dos transportes, e em particular o ferroviário, que sobrepõe à sua capacidade técnica os seus dogmas (políticos e outros) e o impede, por isso, de ser um útil instrumento de ajuda à opinião pública, por norma indiferente e ignorante nestes temas.

Na sua mais recente peça sobre o corredor Centro - Norte, o Público volta a publicar uma peça com roupagem de análise profunda mas conteúdo perfeitamente superficial e sem contraditório. Como diz o melhor professor que já encontrei em temas ferroviários, "é uma pena que neste país os técnicos cedam aos seus sectarismos políticos antes de porem à disposição da sociedade a sua capacidade técnica".

A peça é um triste elemento para discussão do recente plano de investimentos ferroviários (confirmação da execução do PETI3+), pois fere-se de morte em dose dupla:

  • Ao só ouvir uma opinião sobre o assunto - por sinal, muito pouco representativa vistos os passos de discussão que este plano já teve nos últimos anos;
  • Ao focar-se ainda por cima numa opinião que é, ela também, uma lamentável manipulação feita por técnicos que usam e abusam da academia, pervertendo os seus métodos e conferindo roupagem científica na validação incorrecta de ideias pré-concebidas que têm.

Em primeiro lugar, é importante perceber que o grande argumento dado pelos municípios de Coimbra não existe: pretendem que se faça a renovação da linha da Beira Alta em vez de uma linha nova. O que está errado aqui? É que a renovação da linha vai avançar, e com prioridade acrescida face ao segundo projeto. Notável não é? Quem lê a peça pensa que isso não será assim.

Correndo o artigo, encontramos várias outras omissões (propositadas ou não, quem compreende o suficiente dos assuntos conseguirá formar a sua opinião):

  1. A linha Aveiro - Viseu - Salamanca não vai existir, não foi apresentada. Por isso não vai custar mais de mil milhões de Euros. Estão a falar de algo que só existe na cabeça deles e a peça jornalística não contextualiza?;
  2. Custo-Benefício da nova ligação: o jornalista inquiriu por acaso sobre a existência da análise custo-benefício para a renovação da linha da Beira Alta? É que ela não é pública também. Podia acrescentar que nenhum projeto é aceite pela UE sem essa análise, de onde resulta que se vai ser candidatada a fundos.... *ring a bell*;
  3. Quando se fala de uma divisão entre municípios, fala-se de uma divisão fictícia. A própria associação nacional de municípios se manifestou recentemente a favor da nova linha. E porque não se vai para além disso? As confederações patronais todas se pronunciaram a favor desta linha, qual o interesse de restringir o leque de vozes a uma parcela de entidades públicas?
  4. Três comboios de mercadorias por dia na atualidade: um erro muito grave, porque não é um erro - é um engano. O projeto fala em passar de 14 para 20 comboios diários, ao todo. Na atualidade, o tráfego ronda entre 3 a 6 ida e volta por dia... entre 6 e 12 comboios diários. O que a peça diz, e o autor conhece ou tem forma de conhecer o tráfego real da linha, é que a linha chega a ter só 25% do tráfego de mercadorias que efetivamente tem.
  5. Dizem que a renovação em bitola ibérica retira pertinência a Aveiro - Mangualde (- Salamanca) porque a ideia era ter bitola europeia. Falso! Nunca foi dito que a linha ia ser desde o início em bitola europeia. Sempre foi dito nos mesmos termos que a linha Évora - Caia, por exemplo. Corredor para bitola europeia logo que necessário, mas naturalmente construído em bitola ibérica de início. Onde está esse contexto? Essa precisão? Nada. Não informa.
  6. Numa notícia tão preocupada em focar falta de consistência nos projetos, é delirante ver escrito que um suposto projeto de recuperação da ligação internacional da linha do Douro custaria 1/5 da ligação nova. Onde está o estudo dessa obra? É que nunca foi feito, não existe.

 

Isto são as omissões que, a meu ver, um bom trabalho jornalístico teria de ter sido capaz de eliminar - ainda para mais quando é feito por um especialista. Depois vêm questões relacionadas com a opinião mais ou menos subjetiva e para as quais o artigo devia ter procurado contraditório:

  • Defesa de uma ligação a Viseu em ramal - qual a base para se dizer que ligar Viseu por um ramal terminal é melhor do que numa ligação "en passant"? Um dos males da ferrovia nacional é ter demasiados ramais terminais, que impedem uma exploração mais económica e de maior escala. Por exemplo, uma ligação Lisboa - Évora - Beja - Faro seria sempre mais interessante do que os atuais três eixos distintos que existem. Como é que não se ouve ninguém que chame a atenção para algo tão óbvio?
  • O número de mercadorias atuais (que está errado) será sempre um não argumento. Pois se se pretende fazer obras para aumentar a competitividade do modo ferroviário, como é que a situação de partida pode influenciar decisivamente a viabilidade da obra? O meio ferroviário é tido como pouco eficiente na atualidade, é natural que tenha um tráfego reduzido (que, ainda assim, em vários dias da semana quase esgota a capacidade anunciada).
  • A ligação internacional do Douro para mercadorias é um projeto de românticos que nunca apresentaram qualquer prova de que conhecem as variáveis de competitividade do transporte de mercadorias. Em 30 anos de encerramento não há um único estudo para ali, pela razão fundamental de que o traçado é ainda pior que o da Beira Alta: mais rampas, curvas mais fechadas e mais obras de arte a reforçar. Se é difícil às vezes rentabilizar comboios na Beira Alta, no Douro é apenas loucura desfasada da realidade. Como é que se aceita a opinião sobre o Douro sem contraditório?

 

Esta peça jornalística mostra que tanto do lado do jornalismo como do lado de quem faz consultoria técnica (neste caso, às câmaras) as convicções pessoais podem sobrepor-se à competência técnica que efetivamente existe. Em nome de dois romantismos (um deles não colocado em causa, a Beira Alta), omitem-se factos, não se procura contraditório.

Quem não percebe de ferrovias (e nem tem de perceber), com que ideia fica depois de ler a peça? Que isto é tudo uma cambada de malandros que ao arrepio de qualquer lógica vai gastar dinheiro só porque sim. Quando há uma infindade de argumentos técnicos e estratégicos para todas as opções em cima da mesa.

Isto é mais um mau exemplo de jornalismo e de academia. É uma pena que o Público desperdice tão boa oportunidade para tentar formar a opinião pública em assuntos que parecem sempre tão nebulosos e que, na realidade, são bastante mais tangíveis do que parece. Em nome de quê?

Um Comentário:

  1. Pingback: A execução ferroviária do PETI3+ – Portugal Ferroviario

Deixar uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *