Suor, Luta e Benfica

Começo pelo título: que belo slogan tem sido veiculado este ano por jogadores e técnicos do Benfica.

imagesNão sei o que vai dar esta época, mas sei o que esperava que desse. O que ainda vai dar não muda em nada a apreciação que faço neste momento e que, salvo algum escândalo ultrajante, não deve mudar hajam ou não títulos esta época. Esta é a equipa do Benfica com mais carácter, mentalidade competitiva e força anímica que me lembro de ver. Nem tudo neste Benfica é de topo - o plantel já foi bem melhor e a organização em campo não é um relógio suíço, mas isso em nada menoriza algo muito mais difícil de ter, de conservar e de projectar em campo: a alma.

A recuperação do Benfica, que se encontra nesta altura em 1º lugar na Liga e nos quartos-de-final da Liga dos Campeões, é fundamentalmente um resultado da perseverança e de uma união impressionante entre técnicos e jogadores. Não tenho dúvidas de que o nosso anterior treinador muito contribuiu para este sucesso pois no rescaldo dos 0-3 que nos infligiu na Luz na 1ª volta achou que era o momento de humilhar um colega de profissão e menorizar uma instituição que, contrariamente à sua crença, sempre foi e sempre será muito superior a figuras menores cujo circunstancial sucesso não disfarçam as dificuldades decorrentes da má formação. Nessa altura, creio que todos percebemos que até ao lavar dos cestos é vindima e Rui Vitória, bem como toda a gente no clube, passou a contar com um apoio total dos adeptos.

Desta simbiose entre apoio dos adeptos e seriedade de quem trabalha no futebol do Benfica saiu este cenário impressionante: com um plantel objectivamente mais fraco que noutros anos, com uma onda de lesões massiva e a atingir as maiores figuras do plantel, o Benfica chegou aos quartos-de-final da Liga dos Campeões sem mácula nem dúvidas e lidera o campeonato quando já jogou todos os clássicos da época. Não sei se isto nos garantirá alguma coisa de realmente festejável no final do ano. Mas como além das conquistas existem os caminhos (esta é homenagem), não duvido de que o caminho trilhado é pelo menos confiável para o futuro.

CdIOhmlWAAEfw98A força psicológica é impressionante de um grupo de trabalho que não se afundou quando acumulou um atraso pornográfico numa fase muito inicial da época, que não afundou com as dolorosas saídas do treinador de seis anos e do sub-capitão, que não afundou com sucessivas derrotas perante o seu ex-treinador, que não afundou com a decepção da Madeira ou com a subalternização diante do medíocre Porto desta época. A tudo isso resistiram com uma fé infinita neles mesmos. E assim se transformaram incertezas em certezas. Num plantel enfraquecido surgiu Gonçalo Guedes (que eu não gosto particularmente, mas há-de fazer o seu caminho), Renato Sanches (terá de ser inteligentemente domado) ou Lindelof (que centralão!), cresceram soluções onde pareciam estar problemas insolúveis e sempre, mas sempre, com uma tremenda calma e auto-confiança.

Esta equipa do Benfica é das mais admiráveis. E se estava tão preocupado ou até revoltado pela incúria no início da época isso só sublinha, aos meus olhos, o fantástico trajecto de superação pessoal e colectiva de todo o grupo, com o treinador à cabeça. Rui Vitória ganhou pelo seu estilo e pelo seu método, rejeitou a boçalidade quando parecia conveniente e não desesperou quando o chão debaixo de si tremia como em 1755. Conquistou um balneário desesperançado e até desconfiado por um estilo tão diferente do anterior treinador mas soube transformar tudo isso em pontos a seu favor: a capacidade de ouvir, a capacidade de acomodar diferentes expectativas, personalidades e estilos e a inabalável confiança no valor de cada indivíduo em prol do grupo.

Eu não sei se vamos ganhar o campeonato ou sequer se vamos evitar uma goleada nos quartos-de-final (perdoem-me o pessimismo, mas eu sei o que jogam Bayern ou Barcelona). Mas sei que dificilmente me farão rever o orgulho e admiração que nutro por esta equipa tão especial, que conjuga artistas como Gaitan a briosos como André Almeida, amuletos como Fejsa a tanques como Mitroglou ou da experiência de Júlio César à vitalidade inocente de Renato Sanches. Todos muito diferentes, mas todos muito iguais: quando o árbitro apita, não há presságios, oráculos ou preces que definam o destino da equipa. A partir desse momento, há sim uma equipa que luta, transpira e prefere quebrar a torcer. Quando assim é, num clube como o Benfica, ganha-se mais vezes do que se quebra. Que a glória coroe tão bonito e especial percurso.

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