Lindelof, um central que paira sobre o jogo

Não sou um académico seguidor de futebol mas antes um adepto que adora o Benfica e cuja modalidade preferida é o futebol. Mas nem por isso deixo de me encantar especialmente com alguns papéis que podem ser desempenhados em campo. Da mesma forma que adoro ver guarda-redes naturalmente serenos e que se sentem em casa na grande área, gosto muito daqueles centrais que recusam o nervosismo de serem a última barreira à queda no abismo.

Tive a sorte de poder ver algumas referências desta posição, no Benfica e fora dele. A elegância em campo de Ricardo Gomes fica-me como a memória mais distante de um central que coloco numa categoria especial entre os centrais. No período mais negro do clube, conseguimos ver por alguns meses Gamarra. E finalmente, já mais recentemente, tivemos Garay. Cada um com o seu estilo particular, todos eles com uma insustentável leveza no jogo. À iminência do abismo que um poderoso ataque adversário corporiza, respondiam sempre com uma quase louca tranquilidade. Como era possível a equipa à beira de ruir, e estes homens ali de chuteiras, no relvado, com a tranquilidade de quem se senta numa esplanada num Domingo de Sol?

Lindelof é o mais recente caso nesta linhagem especial que elejo. A ligação sueca ao Benfica havia de voltar a dar frutos algum dia! Com 21 anos vejo em Lindelof o que raramente vi em centrais, mesmo entre os mais consagrados. A frieza deste nórdico às vezes parece quase uma ingénua irresponsabilidade, uma sensação que é rapidamente substituída pela impressão que afinal o ataque adversário era um bluff sem pólvora. É muito raro vê-lo em carrinhos desesperados, é ainda mais raro vê-lo em grandes vôos para uma antecipação de última hora. Parece um jogador tão pacato como o Rui Tavares a lidar com a Troika.

Mas porque é assim? Como é que um miúdo que começa como 4º central, entra para titular na fase mais crítica da época, e tem o imenso desplante de jogo após jogo tirar da cartola exibições destas? Por esta altura já teve pela frente alguns jogadores de grande craveira... nem Lewandovski teve hipóteses perante o Iceman.

Lindelof joga futebol com a cabeça. Não apenas quando a bola vem alta, mas sempre. Quando os outros defesas se preocupam em pensar como vão recuperar posição, como vão conseguir fazer o desarme ou como vão evitar ser ludibriados por um avançado talentoso, Lindelof já resolveu o problema. Muito antes dele aparecer, no seu laboratório mental, estudou as várias hipóteses de desenvolvimento do ataque adversário. O que faria se fosse ele o avançado? Tendo em conta que o avançado é o jogador A, o que é expectável que faça? Para onde vai caminhar a jogada? Onde estão os companheiros? Muitas vezes nem acaba com a bola nos pés, mas o avançado que acaba por conseguir receber, recebe a bola sem hipótese de fazer nada de jeito. Entretanto ou Lindelof ou um colega a passar perto tratarão de formalizar o desarme cuja escritura Lindelof assinou minutos antes.

Confesso-me absolutamente rendido. Conhecia ja Lindelof, nem me surprendeu particularmente ser considerado o melhor defesa direito do Europeu Sub-21. Tem físico, inteligência e qualidade técnica para a posição. Mas a central Lindelof rende muito mais. É um central em corpo e cabeça de médio, para ele evitar o abismo não é o desespero da última linha defensiva mas sim mais uma ação tática entre milhares que ocorrem nos 90 minutos. E depois sai a jogar. Passes muitas vezes incisivos, milimétricos e para a progressão dos colegas à sua frente. O futebol parece simples!

É claro que ainda pode evoluir e certamente fará exibições para esquecer. Mas é quanto a mim o melhor defesa central do Benfica. Pode não ter a experiência de Luisão, a galhardia de Jardel ou a agressividade de Lisandro, mas tem algo muito mais admirável: a capacidade de pairar sobre o jogo e escolher quando quer intervir. Como vê o jogo de cima, raramente falha o momento, o local e a forma de intervir na partida. Não há muitos jogadores assim e defesas centrais ainda menos. Que por cá fique muitos anos, até porque parece um profissional ambicioso e extremamente responsável.

Palavra para o treinador. O jogador é especial, mas sem um treinador que acredite e que saiba ajudar um jovem jogador a saltar as etapas na sua chegada à máxima exigência do escalão sénior, nada feito. A entrada irrepreensível de Lindelof na equipa foi tranquila porque Rui Vitória permitiu que assim fosse. Um descanso!

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