A economia piora mas as previsões não

Do que se vai sabendo, o Plano de Estabilidade e Crescimento vai ser apresentado com uma duríssima revisão das metas para 2017 (PIB a crescer 1,8% e não 3,1%, défice também mais baixo) e passar ao lado de 2016.

Do ano de 2016 já se sabe que será bastante pior do que o previsto: menos emprego, PIB a crescer menos, consumo interno a crescer menos e até as exportações a abrandarem. No entanto nas previsões não se mexe.

O cenário de 2017 vai exigir um orçamento de estado absolutamente draconiano: com as despesas em máximos e uma economia com fragilidade renovada teremos ou subidas de impostos para todos ou revisão das reversões feitas este ano para alguns. Ou um misto das duas coisas. Em todo o caso, com alguma segurança se pode dizer que nem PCP nem BE estarão em condições de sustentar um Governo que deixará de poder fugir à etiqueta de promover o arrefecimento económico e o renovar da "austeridade". O BE porque vai montando uma perspetiva de crescimento que o tenta a concorrer aos votos do PS, o PCP porque se suicidaria com tal coisa.

E é precisamente isto que justifica a ilusão de 2016. Porque não se tocam já nas previsões de 2016, sendo evidente o seu deslocamento?

  • Confirmaria uma trajetória descendente da economia após dois anos de recuperação - inaceitável para BE e PCP;
  • Assumiria o falhanço das metas orçamentais - inaceitável para Portugal e para a UE;
  • Necessitaria de um orçamento retificativo onde o recurso a impostos ou redução de rendimentos seria inevitáveil - inaceitável para BE e PCP;
  • Nenhuma sondagem mostra que o PS poderá já, com segurança, dispensar os outros partidos ou sequer dispensar apenas o PCP.

Por isso, a reboque de receitas de impostos muito boas no 1º trimestre de 2016 (a antecipação de aquisição de bens duráveis cujos impostos aumentaram depois ajudou), o Governo vai jogar nas zonas cinzentas que a diplomacia e a política entre Estados Membros não permitem atacar ferozmente. Durante mais alguns meses, a UE dirá que Portugal tem números errados (sem poder dizer que Portugal os apresenta deliberadamente errados) enquanto que o Dr. Costa exibirá o seu melhor sorriso para dizer que está mais confiante nos números do seu governo (sabendo que nunca na vida se vão concretizar). Isto permitirá atirar a tensão política para a discussão do OE 2017 ou para a discussão de um retificativo tardio, que em todo o caso calhará na mesma altura. Pelo meio teremos alguns foguetes entre Lisboa e Bruxelas, com inevitáveis danos para a credibilidade nacional, mas para o Dr. Costa isso também são irrelevâncias e tecnicalidades.

Nessa altura, obviamente, Portugal estará a deparar-se com uma execução orçamental calamitosa e cujos efeitos imediatos são mais ou menos previsíveis, sobretudo junto da agência de rating DBRS. Mas para o Dr. Costa o essencial estará cumprido: conseguir mais 6 meses de governação a distribuir tudo o que as mais ruidosas corporações pedem, na esperança de retribuirem ao PS um bom resultado eleitoral lá mais para a frente.

Com uma execução desastrosa até poderá tentar ensaiar um discurso de vitimização: "tentámos tudo, mas o país não respondeu com entusiasmo e expansão económica". Duvido que cole, mas falta de vergonha para o ensaiar sabemos que existe.

Parece-me que só haverá um cenário que pode evitar este jogo eleitoral - se a DBRS baixar já o rating de Portugal. Isso atiraria o país imediatamente para um pântano mas também evitaria que Portugal demorasse mais meses a acordar. Mas como estou convencido que a DBRS irá apenas baixar a sua perspetiva relativamente a Portugal e que um downgrade da dívida acontecerá só no final do ano, voltamos ao tal timing: Setembro - Outubro de 2016. Aí, o Dr. Costa espera já ter as próximas eleições no bolso e poderá portanto roer a corda à esquerda. O estado em que o país acordar nessa altura é um mero detalhe.

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