O primeiro 10 da era moderna

O Benfica é, de facto, uma das últimas equipas do futebol romântico do velho Continente. Há belos artigos em vários órgãos de comunicação social por esse mundo fora dedicados ao estatuto especial do Benfica, um dos poucos (senão o único) que conseguiu emergir do irresistível romantismo do futebol pré-Bosman para continuar, orgulhoso, a ostentar muitos dos seus traços de personalidade mais característicos, mesmo que arredado do poderio financeiro que hoje em dia dita regras por essa Europa fora.

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Talvez por isso, o clube foi dos últimos a deixar cair o conceito do número 10. O número 10, no futebol romântico, é o jogador dos jogadores. Aquele que foi tocado por Midas, capaz das habilidades com os pés que outros nem com as mãos conseguiriam, com a inteligência dos grandes físicos, a visão de jogo elevada de um astronauta e o tango de Gardel. O jogador capaz de destroçar uma equipa adversária e terminar o jogo com os calções limpos.

Com a saída de Aimar, o Benfica conseguiu manter-se no restrito lote de clubes que ainda cultivam o '10', e conseguiu-o com um perfil diferente. Gaitan é o primeiro 10 da era moderna no Benfica. Conserva o sacramento do número mas transforma-o num elemento mais dinâmico em campo, menos preocupado em devolver os calções impecáveis mas sempre focado em dar aos espetadores o que os outros artistas não conseguem oferecer.

Falar destes seis anos maravilhosos do nosso Nico é inútil - as muitas horas de vídeo farão melhor do que qualquer texto. Destaco o lado de "hincha" deste enorme jogador. Chegou com 22 anos do Boca Juniors, o gigante argentino, onde muitas vezes chegava de autocarro para treinar. Quando a maioria dos jogadores na sua posição ficaria deslumbrado com a oportunidade financeira de vir para a Europa, Nico chegou tímido e até triste. A sua primeira época teve números assombrosos antes de uma relativa hibernação na sua segunda época. A sua vida por cá recheou-se depois de títulos, grandes jogos, golos e assistências inolvidáveis, numa crescente e até seminal ligação com a grande família que se cultiva neste clube.

No Benfica foi nº 10, extremo esquerdo, avançado, extremo direito e até defesa esquerdo. Foi o underdog, a estrela da equipa e encarnou a responsabilidade da capitania da equipa. Sempre numa atitude low profile completamente inesperada para alguém de tão proeminente importância e competência futebolística. Essa lição de humildade também é uma responsabilidade dos 10. Dos de antigamente e dos de hoje.

Parte ao fim de seis anos como naquele dia em que o obrigaram a sair do bairro da Boca, em Buenos Aires. De lágrimas nos olhos e explicando a todos os adeptos que agora é que é. Ofereceu-nos mais 70 minutos de pura magia e entrega, duas qualidades de um artista operário que fazem jus às suas origens. E depois saiu a chorar, como um menino que é obrigado a afastar-se de casa. Há coisas impossíveis de teatralizar - esta foi claramente de coração.

Há uma máxima que diz: "Joga pelo símbolo que tens no peito e todos se lembrarão do nome que a tua camisola leva nas costas". Assim é com Nico Gaitán.

Obrigado Nico e volta sempre. Esta também é a tua casa.

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