Raio-X às maiores SAD do futebol nacional

Os três grandes deram ontem a conhecer as respetivas contas dos primeiros nove meses do exercício 2015 / 2016. Os três registaram perdas nos primeiros nove meses do ano, liderando esse infeliz campeonato o Porto, seguido do Sporting e Benfica.

É curioso registar a forma mais ou menos preocupada com que são justificadas contas que não podem, em absoluto, ser vistas como positivas.

O Benfica

Pontos de destaque

  • 9,3 M€ de prejuízo líquido, agravamento de 23,3M€ face a idêntico período do ano passado;
  • Rendimentos operacionais com acréscimo de 22%, sobretudo devido à boa campanha na Liga dos Campeões;
  • Resultado com transação de jogadores negativo (-8M€) por comparação com a época passada (+32M€). Aqui obviamente justificado com horizontes temporais distintos para realização de mais-valias: a venda de Renato Sanches ainda não está contemplada nas contas deste ano.

Perguntas sem resposta

  • Aumento dos custos operacionais, num contexto de desinvestimento aparente: aumentaram Fornecimentos externos e massa salarial, esta última justificada com prémios. Mas não era suposto a contenção de custos ser absoluta e grande o suficiente para não ficar à mercê de prémios?

Desafios principais

  • Custos financeiros: Continuaram a subir, para 13,4M€ em 9 meses - o novo empréstimo obrigacionista substitui outros de juros mais elevados. No entanto, a elevada pressão de financiamento no curto prazo (100M€ no passivo corrente) vai continuar a ser uma faca apontada;
  • Custos com pessoal: não se viu em lado nenhum o desinvestimento feito (muito menores gastos com treinadores, jogadores menos credenciados). É óbvia a necessidade de baixar custos para conseguir mais estabilidade;
  • Aproveitar novos contratos para reduzir expressão das vendas de jogadores no resultado final: menos de 25M€ de mais-valias são, quase sempre, sinónimo de prejuízo;
  • Voltar a equilibrar capital próprio - com o resultado dos primeiros nove meses voltou para terreno negativo.

O que se pode esperar no final do exercício

  • Com venda de Renato, proveitos dos quartos de finais da Liga dos Campeões, prémios adicionais e receitas de bilheteira elevadas (enchentes de fim de ano), espero rendimentos operacionais a rondar os 140 milhões de Euros;
  • Os gastos operacionais deverão situar-se nos 110 a 120 milhões de Euros;
  • Resultado com atletas (proveitos - amortizações) a rondar os 15 M€ positivos (com a venda do Renato Sanches);
  • Um resultado líquido à volta de 20M€.

Veredicto

Acabará por ser um exercício marcado pela melhoria financeira da SAD, somado ao imenso sucesso desportivo alcançado. No entanto, de um ponto de vista de gestão, este não será um exercício de mudança de paradigma. O bom resultado é sobretudo conseguido pela manutenção de fortes vendas de passes de jogadores e um resultado muito melhor de prémios de competições europeias.

Deste modo, se é certo que do lado desportivo a mudança de paradigma aconteceu e teve êxito, do lado financeiro fica a pergunta: porque é que os custos operacionais não baixaram na mesma medida da mudança de paradigma na vertente desportiva?

Há vários anos que se impõe uma decisão mais corajosa relativamente à situação financeira da SAD: exige-se uma renegociação com a banca, visto que o Sporting a conseguiu. De resto, os vários (bons) contratos que estão em carteira na vertente promocional, publicitária e de TV podem também abrir portas a um decisivo encurtamento dos empréstimos obtidos, fontes de elevados gastos financeiros. Estar a pagar uma taxa de juro média superior a 5% nesta fase, não faz sentido.

O Sporting

Pontos de destaque

  • Um quadro que mostra compras e vendas de jogadores, com pormenores contratuais e comissões detalhadas: chapeau!
  • 17M€ de prejuízo, contra 22M€ de lucro no ano passado;
  • 24% de aumento nas receitas operacionais, para 54,7M€ em 9meses;
  • Foi finalmente registada a provisão do caso Doyen - 14,4 M€.

Perguntas sem resposta

  • Mesmo mudando o paradigma desportivo e pondo o clube a mostrar os dentes no campeonato, como se justifica alguma vez um aumento de custos operacionais de 53% de um exercício para outro?
  • Uma preocupação de justificar algumas decisões de gestão duvidosa: por exemplo, diz-se que o contrato com a NOS assinado entretanto justifica bem a aposta de não ter patrocinador principal durante esta época. Mas há relação entre as duas coisas?

Desafios principais

  • Alinhar gastos e rendimentos operacionais: apesar de receitas históricas, os gastos operacionais foram mais elevados;
  • Evitar uma subida de gastos financeiros como o que sucedeu este ano: aumentaram 228% este ano;
  • Aproveitar novo contrato de TV para sustentar um aumento de dimensão.

O que se pode esperar no final do exercício

  • Um resultado operacional negativo entre 1 e 5M€;
  • Resultado financeiro negativo de 4M€;
  • Vendas representando mais-valias de pelo menos 15M€, podendo ir até 24M€ se o objetivo for equilibrar o exercício - resultado líquido 0.

Veredicto

Os exercícios económicos têm três grandes capítulos: o resultado operacional, o resultado com atletas e o resultado financeiro. Basicamente, o Sporting consegue ainda um resultado interessante no financeiro - 3,2M€ de encargos líquidos em 9 meses não é um drama.

Fruto da nova política expansionista, o Sporting pôs em causa o equilíbrio operacional, que era o maior resultado de gestão dos últimos anos. Sem resultados desportivos e sem proveitos relevantes das provas da UEFA, a estrutura de custos começa a projetar-se para números proibitivos vista a estrutura de proveitos do clube.

Os fluxos de caixa negativos reflectem uma crescente pressão de financiamento, a fazer recordar velhos vícios. É negativo à custa dos fluxos operacionais, onde a balança de pagamentos é negativa em 17M€. Aqui está uma preocupação concreta na linha do parágrafo anterior.

Fundamentalmente, vejo aqui um risco do Sporting poder deitar a perder a reestruturação financeira feita, que aliviou muito a pressão de financiamento da SAD, podendo isso na realidade constituir um duplo problema, na medida em que a pressão anteriormente existente não foi suprimida, apenas reagendada. Se em vez de se aproveitar o presente para ir acomodando as responsabilidades programadas se começa já a inserir nova pressão de curto prazo, o resultado final pode ser ainda mais complicado do que a situação pré-2012.

O Porto

Pontos de destaque

  • Resultado líquido negativo em 38M€;
  • Resultado operacional (sem atletas) negativo em 32,2M€!
  • Proveitos operacionais em queda de 22%, sobretudo devido à performance desportiva - cifraram-se em pouco mais de 57M€ nos primeiros nove meses.

Perguntas sem resposta

  • Até quando dura o all-in? Para uma estrutura financeira tão frágil, é incrível o Porto ter mantido custos operacionais que já eram muito elevados. Só em salários, há 53,5M€ em 9 meses - um recorde do futebol nacional;
  • Não há qualquer sugestão para o caminho que vai ser percorrido para estancar o caos financeiro desta SAD. É uma autêntica casa a arder!

Desafios principais

  • Estancar rapidamente a hemorragia operacional. Se no ano passado com excelentes receitas UEFA o prejuízo operacional foi de 18M€ nos primeiros 9 meses, este ano foi ainda pior. Mais: os novos contratos (de TV) não permitem por si só alterar substancialmente esta situação. A estrutura de custos é muito maior do que o Porto pode alguma vez suportar;
  • Reestruturação financeira - 14M€ de encargos financeiros em 9 meses é mortal e tal como o Benfica o Porto precisa de por em ordem, de uma vez por todas, a sua estrutura de financiamento;
  • Vender activos é fundamental. As vendas registadas nestes nove meses, apesar de interessantes (25,2M€) não chegam sequer para pagar amortizações e custos das transferências.

O que se pode esperar no final do exercício

  • Um resultado operacional negativo em cerca de 40M€ - provavelmente recorde do futebol nacional?
  • Os custos com pessoal absorverão no final do ano cerca de 95% dos proveitos operacionais;
  • Um resultado financeiro negativo em mais de 17M€;
  • Necessidades de mais-valias (vendas - amortizações - gastos com vendas) de pelo menos 50M€ apenas para equilibrar resultado.

Veredicto

A situação é pior a nível económico do que a nível desportivo, e com isto digo tudo. Se eu fosse do Porto estava à beira de um ataque de nervos. O Porto arrisca-se num exercício a engolir metade do capital social, o que diz tudo sobre a urgência de alterar radicalmente a gestão da SAD.

Tal como o Benfica, tem uma pressão de financiamento no curto prazo muito elevada e com custos incomportáveis. E tal como o Sporting, materializa riscos económicos - mas muito maiores. É portanto uma súmula dos riscos de Benfica e Sporting.

Não me passa pela cabeça que o Porto não reduza fortemente custos no próximo ano, mas vendo os sucessivos all-ins já feitos e a urgência de resultados desportivos, é possível que se continue a arriscar. Uma SAD que perde 40M€ só nas transacções operacionais, é uma SAD inviável a curto prazo. Seja pela pressão que isso coloca no financiamento seja até pelas regras de fair play financeiro da UEFA. O resultado operacional potencial deste ano, negativo em 40M€, equivale a cerca de 53% dos proveitos operacionais que pode realizar.

Conclusões Finais

Isto não é uma medição de pilinhas, mas é evidente que as situações dos três clubes não são iguais.

Patrimonialmente, o Porto parece ser, de longe, o clube em melhor situação. É, no entanto, a SAD com um perímetro de consolidação menor - ou seja, não é directamente comparável com as outras SADs. É uma perfeita incógnita a realidade consolidada do Universo empresarial do Porto. Benfica e Sporting sobrevivem no fio da navalha, em universos mais comparáveis. Dependem do resultado líquido deste exercício para terminarem Junho em falência técnica ou com capitais positivos.

Financeiramente, Porto e Benfica enfrentam necessidade de reestruturar as suas dívidas. A importância dos montantes em dívida junto de bancos, aliada à reestruturação bancária feita pelo Sporting, devem pressionar ambos os clubes para seguirem o mesmo caminho. A alternativa é quase abdicar da competitividade desportiva para solucionar este problema - sobretudo no caso do Porto.

Economicamente, o único clube com motivos para sorrir é o Benfica. Tem proveitos de outra escala e os novos contratos têm valores importantes o suficiente para acomodarem a imprevisibilidade dos proveitos com prémios UEFA. Uma prudente gestão de risco pode permitir aumentar ligeiramente os custos sem por em causa a necessidade de gerir resultados operacionais francamente positivos. Não materializou no entanto o corte de custos anunciado.

O Sporting tem riscos grandes. A época correu melhor do lado dos proveitos do que épocas recentes mas ainda assim foi nesta época que recomeçou uma insuficiência operacional que se traduz já num aumento de necessidades de financiamento. Se existir um reequilíbrio imediato, ter-se-á tratado apenas de uma alavancagem pontual sem repercussões na viabilidade futura da SAD. Mas o risco de bola de neve está presente.

Por fim, o Porto. A situação é muito difícil - economicamente as contas são desastrosas. O Porto sempre precisou de vender muito, mas este ano a escala do desequilíbrio operacional praticamente garante que nem vendendo o plantel todo seria possível gerar mais-valias suficientes para equilibrar o exercício. E isto é um cenário desastroso. Dou mais ênfase à perspetiva económica nos três clubes pois um clube economicamente viável conseguirá sempre equilibrar-se nas outras vertentes - a não ser que não queira (como parece ser o caso no Benfica, onde incompreensivelmente não avança uma renegociação dos seus empréstimos). Mas uma situação económica débil deixa pouca margem a milagres.

Patrimonialmente até se pode dizer que o Porto ainda tem margem para mais desvarios, mas por outro lado pensemos que há mais prejuízos não consolidados fora da SAD. Mas uma coisa é certa: se o Porto mantiver, nem que seja só por mais uma época, os desequilíbrios monumentais que estão à vista, isso pode significar penhorar no mínimo a competitividade desportiva por bons anos no futuro.

Assim está o "campeonato" das finanças.

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