A ideologia que nos separará – um ensaio

Não tenho intenção de me alinhar com as grandes convenções da ciência política e da filosofia sobre o papel da ideologia. Interesso-me mais por questões práticas (deve ser certamente defeito da minha área de formação), com impacto nas nossas vidas e com as lições que a história nos ensina.

A ideologia é, na ciência política, uma tentativa de aproximação às verdadeiras ciências. Nas ciências existem modelos, evolutivos, que permitem simplificar a realidade e testar conclusões. Em política, a ideologia é o instrumento de simplificação da realidade para implementar um programa - uma agenda. A grande diferença é que um modelo na física pode ser testado, contrariado ou comprovado, com precisão matemática e auditável por todos. A ideologia é uma simplificação da realidade que depende sempre dos olhos de quem a observa - não há uma base precisa para a avaliar.

Os tempos que atravessamos são tudo menos interessantes. São, como nunca, tempos férteis para grandes reflexões e discussões. Mas não são, em nada, tempos novos. Nada do que hoje se discute em Portugal ou em Espanha é uma novidade no país, na Europa ou no mundo. E, por isso, não são interessantes. Serão, quando muito, revivalismo histórico.

A ideologia voltou hoje ao centro do debate político e social, o que me preocupa. Não sou um fanático anti-ideologia (até porque rejeitá-la em absoluto é outra forma de ideologia), mas não acredito nas virtudes que a ideologia pode ter quando tenta dar-nos mais do que uma base de reflexão. Quando a ideologia se pretende transformar em modelo de organização social, numa aplicação abusiva do método científico aos comportamentos e escolhas de milhões de indivíduos livres e pensantes, estamos perigosamente perto de abdicarmos da realidade complexa e aderir à simplificação a que já aludi.

Não será por acaso que durante décadas ouvimos os extremos do espectro político (à direita e à esquerda) a acusarem os moderados de ausência de ideologia, tentando desvalorizá-los como se fossem actores políticos sem capacidade de pensar sobre modelos de desenvolvimento. Na realidade, políticos fortemente ideológicos só são encontrados nos extremos, e isso também não é de hoje - sendo as ideologias uma simplificação da sociedade, naturalmente só pode ser imposta à força.

Quando a social democracia triunfou na Europa, triunfou fundamentalmente como um movimento de reduzida ideologia e forte adesão à realidade. Perante democracias consolidadas, fortes demograficamente e em acelerada expansão, os políticos criaram modelos de sociedade com níveis de vida, conforto e proteção social nunca vistos e, possivelmente, nem sequer sonhados nas décadas que lhes antecederam. Isto atirou para fora das luzes da ribalta os mais  insistentes actores políticos - os extremistas.

Durante décadas, os extremistas degladiaram-se para por em causa um dos maiores sucessos da Humanidade. Foram sempre marginalizados pela óbvia falta de adesão das suas crenças e religiões à realidade. Agarraram-se sucessivamente a temas concretos onde o contraditório não é científico (ou seja, aos temas onde nunca seria possível provar em absoluto o seu erro). São casos disso a pobreza (que nunca foi totalmente erradicada, nem o poderá ser, esquecendo que nunca a pobreza baixou tanto em todo o mundo) ou a segurança (que nunca é absoluta mas que, mesmo com ameaças terroristas, possivelmente nunca foi tão grande à escala global).

O tempo é, quase sempre, curativo. Mas também desgasta. E desgastou o nervo dos que foram construindo a realidade com pragmatismo e realismo, por oposição aos sempre irados, extremados e revolucionários extremistas nos dois lados do espectro político, sempre prontos a berrarem, de veias salientes, a desgraça da moderação e as virtudes dos seus modelos absolutistas.

Pássamos 900 anos a construir castelos e muros, até que o maior desastre da tumultuosa história da Humanidade nos obrigou a perceber que temos mais a ganhar articulando-nos com outros do que em nos emanciparmos geograficamente. E assim nasceu a União Europeia, reunindo povos desavindos dispostos a tornarem-se interdependentes para alcançar novos patamares de desenvolvimento, cooperação e humanismo.

A ideologia tenta habitualmente menosprezar componentes da nossa vida social. É frequente ouvirmos que "a política não pode ser só economia". Esta ideia é um logro. Não porque seja mentira (os maiores ideólogos jogam sempre nesta zona cinzenta do que não é de facto mentira), mas porque pretende ignorar o concreto das nossas vidas em proveito da tal simplificação conceptual de que as elites intelectuais, por norma alinhadas com o radicalismo político, tanto promovem.

A economia não é, também, uma ciência. É fantástico que quem mais o recorde (os tais ideólogos que, ao afirmarem também isto, pretendem reduzir a importância da economia) não se lembre que essa é precisamente a razão pela qual programar desenvolvimento económico não se compadece com vastos programas políticos de condicionamento e reorganização do tecido económico de um país. Porque a economia é o resultado das escolhas de cada indivíduo. Ou seja, o output só pode corresponder com certeza a uma pré-determinação se a realidade for, de facto, pré-determinada. E é por isso que as ideologias dos extremos resultam sempre em ditaduras. Porque só assim há esperança de alinhar a complexa realidade pela simplificação conceptual nascida na ideologia.

Parece-me cada vez mais claro o que nos está a acontecer a todos. Fomos apanhados no fogo cruzado das elites intelectuais, que se arrogam da superior moralidade de quem acredita poder dizer que pode determinar o nosso futuro colectivo de forma científica, infalível e fazer jus aos discursos pela paz das Miss Mundo. E, por puro oportunismo político, temos por toda a Europa políticos moderados a embarcarem nos discursos dos extremos, que lhes dão a oportunidade única de uma redenção indolor dos erros cometidos no período que culminou com a maior crise económica desde os anos 20.

Esses políticos moderados falharam em grande medida nas políticas que seguiram nos últimos 15 anos. Ao invés de seguirem o exercício dos grandes Homens e procurarem corrigir os problemas de adesão à realidade que os seus modelos tiveram, aderiram em força aos ideólogos que passaram as últimas décadas em universidades a tentarem transformar as suas áreas de conhecimento subjetivo em ciências absolutas, como se de matemática se tratassem. E o apelo dourado da indolor redenção seduziu muitos.

É por isso que, num ápice, a Europa foi invadida por políticos que negam todas as grandes bases do histórico desenvolvimento que alcançámos no pós-Guerra. Negam a moderação e as típicas abordagens incrementais para abraçarem resets ideológicos cujos resultados conhecemos e cuja aplicação prática limita objetivamente as nossas liberdades individuais. Negam pactos Europeus que eles próprios assinaram sem reflectirem no que lhes deu origem. A discussão sobre o tratado Orçamental é um exemplo de perigosa ideologia totalitária - qual o benefício de demolir o tratado orçamental? O que ganharia algum país por poder ter défices elevados por períodos de tempo mais alargados? É que não estamos propriamente num domínio desconhecido: temos a experiência dos resultados, incontáveis vezes.

E é por isso que digo que será a ideologia que nos vai separar. Não é possível por dois tipos de abordagens tão diferentes em debate franco e aberto. A dicotomia não é esquerda e direita, pois ambas nos permitiram evoluir como nunca no passado. A dicotomia é entre radicais e moderados. Entre conservadores e liberais. Radicais e conservadores pretendem impor à sociedade visões dogmáticas sobre organização e relações sociais enquanto que moderados e liberais pretendem adaptar evolutivamente a organização e as relações sociais às expectativas e evoluções dos indivíduos. A diferença é total.

Nada do que diz António Costa em Portugal, Pablo Iglesias em Espanha ou Marine Le Pen é fácil de rebater. A esmagadora maioria do que dizem não é errada em absoluto mas está muito longe de ser a verdade que tentam passar. Todos eles acreditam que o poder da palavra pode substituir as expectativas concretas de todos nós pelo reset ideológico com que pretendem construir os países de amanhã. Pablo Iglesias diz por estes dias que Marx e Engels eram sociais democratas e que o seu programa neocomunista é também ele social democrata. É uma afirmação tão errada quanto vazia, porque na realidade não quer dizer nada. Tenta apenas aproveitar a força das palavras (e a boa reputação da expressão social democracia) para travestir o totalitarismo ideológico que quer impor.

Quando António Costa suja o projeto da União Europeia misturando mortes no Mediterrâneo com observância pelas regras orçamentais a que nos vinculámos de livre vontade, está na realidade a aproveitar a dourada redenção que os radicais anti-sistema lhe oferecem, permitindo-lhe ignorar a sua pertença a governos medíocres e que falharam nas suas concepções da realidade. Se António Costa quisesse mesmo discutir a União Europeia e os seus tratados, começaria por apresentar alternativas concretas. O problema do Tratado Orçamental é propor um défice de apenas 3%? Se sim, que vantagens retiraria Portugal, numa perspectiva de médio e longo prazo, de gastar mais e durante mais tempo? Quando fala de soberania nacional, o que poderíamos ganhar com doses reforçadas de soberania nacional enquanto nos endividamos no exterior? Ou à luz dos pilares da União Europeia como projeto de paz?

A distinção entre populistas e os outros é que os populistas nunca analisam e confrontam as ideias que propagam. É fácil dizer que a União Europeia segue uma cartilha de pensamento único sem assumir perante o eleitorado que a única restrição absoluta é o défice público. Como o país gasta, aonde aloca os recursos e o que quer tributar para obter receitas, é (ainda) com cada país. Rejeitar esta constatação à opinião pública é conscientemente negar-lhe o caminho do progresso que nos trouxe até aqui.

Será a ideologia que nos separará em definitivo. É impossível um debate entre indivíduos livres e que reconhecem a dinâmica das nossas relações sociais e outros que acreditam na sua pré-determinação conceptual por elites alienadas. É este o confronto dos nossos tempos.

Nem a base progressista do PS (como do PSOE e outros na Europa) percebeu, nem partidos como o PSD (ou o PP em Espanha) entende a urgência de combater a orwelliana emancipação dos cientistas ideológicos. Por entre votos comprados, populismos fáceis e optimismos de privilegiados sociais, são vários os povos cujo futuro é hoje uma lança afiada que voa rapidamente na sua direção.

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