Debate em Espanha – curtas

O grande evento político de ontem foi o debate em Espanha, o único a quatro - Rajoy (PP), Sanchez (PSOE), Rivera (C's) e Iglesas (Podemos). O debate mostrou porque é que nas sondagens existe uma tendência crescente de PP e Podemos, um arrefecimento do C's e um afundamento do PSOE.

Iglesias gastou todas as suas intervenções a namoriscar o PSOE e a vender os ideais bolivarianos, um por um, com a sua dose completamente assumida de populismo. Sabemos que a receita pode não funcionar, ou não fosse a receita da Venezuela, mas ninguém poderá acusar o Podemos de aldrabar. Quem votar neles, sabe ao que vai. E o populismo na Europa dos dias de hoje seduz muita gente. Face à falta de resposta à esquerda por parte do PSOE, o crescimento do Podemos é natural. Iglesias esteve objetivamente mal em vários temas e mesmo no tema da corrupção acabou por levar com o boomerang que atirou em cheio na testa. Mas ele está objetivamente imune a momentos menos conseguidos pela restante estratégia política que ele competentemente vai implementando.

Albert Rivera, do C's, esteve bem. É o político mais inteligente da sua geração, o homem que quer ruturas sem as forçar. Que quer reformar a partir do centro, com uma agenda liberal q.b., projetando uma nova Espanha para o futuro. Apesar de ter protagonizado, novamente, os mais contundentes ataques a Rajoy, Rivera moderou-se bastante mais neste particular e percebeu que a sua recente colagem ao PSOE não está a agradar ao seu eleitorado potencial. Apontou baterias ao populismo de Iglesias e arrancou uma boa prestação no debate. Nota-se alguma ingenuidade em muitos momentos, sem dúvida a face visível da inexperiência, mas é inegável que representa uma certa forma nova de fazer política. Se moderar a sua faceta de justiceiro no tema da corrupção e der mais ênfase ao trabalho que o seu partido já fez na Andaluzia (onde forçou à adopção de novos padrões éticos na formação do governo andaluz), colherá também daí mais frutos. Foi um debate que provavelmente reforçará a percepção de que o partido irá manter, aproximadamente, a votação do 20 de Dezembro.

Quanto a Pedro Sanchez ... eu sei que é fácil bater nos socialistas hoje em dia, mas Sanchez é certamente o mais medíocre socialista europeu. Não fez uma intervenção sem tentar bater em Rajoy e sem falar, choroso, da investidura que falhou há umas semanas atrás. Cada vez que o fazia, perdia votos. Perdia oportunidade de marcar o debate. Na segunda metade foi especialmente visível o ridículo a que se expunha, indisfarçável nos rostos dos seus oponentes e até dos moderadores. Foi incinerado em praticamente em todos os temas, excepto naquele onde pessoalmente acho que o PSOE é o único partido que está certo: a pacificação da Espanha através de uma reforma política e conversão em Estado Federal. Foi uma singular excepção, onde Sanchez marcou pontos e exprimiu uma ideia concreta. De resto... será difícil que chegue sequer aos 20%. Fraco demais.

Chegamos finalmente a Rajoy que, embora distintamente de Pablo Iglesias, também começa a levar a água ao seu moinho. Encontrou um discurso mais simples, mais claro e bastante forte. Apresentou-se de forma convincente como o homem que lidera uma grande economia que resistiu bem à maior crise do século e que agora leva o país a crescimentos sólidos. A criação de emprego (500.000/ano nos últimos dois anos) foi um dado sempre presente no seu discurso e bateu nessa tecla todo o debate: emprego, emprego, emprego. Resistiu ao tema da corrupção, onde o seu partido acumulou bastantes casos, e defendeu-se com uma justiça imparcial e a investigar como nunca. Passado o tema que mais o podia afectar, em tudo o resto pareceu muito confortável e com uma postura bem mais confiante do que no que precedeu as últimas eleições.

Quem ganhou? Talvez ninguém. Foi um debate de convincente resistência de Rajoy, Rivera e até Iglesias (discordando eu dele em tudo). Foi sem dúvida um debate onde alguém perdeu. E esse foi Sanchez, com grande estrondo. Veremos que danos eleitorais lhe provoca este debate.

Previsões? PP 33%, Podemos 26%, PSOE 19%, C's 15%, restantes com 7%. Só será possível maioria absoluta com PP + PSOE + C's ou Podemos + PSOE + Independentistas. A minha aposta? PP + C's, com abstenção do PSOE. Rivera já admite que Rajoy se mantenha à frente do PP e o PSOE provavelmente joga o seu futuro na esperança de poder condicionar e colher alguns louros de um futuro governo de sucesso do PP para encostar o populismo às cordas.

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