Chavismo derrotado em Espanha

Espanha inflingiu ontem a primeira grande derrota ao populismo em solo europeu, ao destroçar as expetativas de poder da coligação Unidos Podemos, que juntou os bolivarianos de Pablo Iglesias com os comunistas de Alberto Garzón.

Uma coisa correu mal: sondagens das últimas semanas foram depois reproduzidas numa sondagem à boca das urnas que foi, em quase tudo, idêntica à média de sondagens anteriores. A realidade foi depois brutalmente diferente - o Podemos ficou longe do PSOE (que até se reforçou em percentagem) e o PP ganhou terreno em todo o território, em alguns lados de forma muito expressiva. Desta vez sim, as sondagens falharam de forma colossal.

O Podemos tinha tudo a seu favor: o populismo natural do seu líder, o controlo de grandes espaços mediáticos e muita experiência nos detalhes da política - nada no Podemos é espontâneo, tudo é teatralizado. E, no entanto, perdeu. Não fosse a coligação com a IU e a perda de deputados teria sido massiva face ao 20 de Dezembro, já que a coligação perdeu bem mais de 1 milhão de votos por toda a Espanha. É inevitável também relacionar o desastre com o rápido desgaste da gestão local do partido em municípios como Madrid, onde o Podemos já perdeu mais de 1/3 dos votos que aí teve quando conseguiu a câmara.

É interessante que foi sobretudo o voto urbano a penalizar o Podemos, desafiando teorias muito convenientes a esse propósito. Em Madrid e em Valencia, onde o domínio do PP tinha ficado fortemente ameaçado, o partido de Rajoy renasceu e conseguiu fortes ampliações da sua base eleitoral. No resto do país, Rajoy conseguiu históricas vitórias na Extremadura (era PSOE) e na Andalucia (foi sempre PSOE em democracia), ficando o PP a dominar todo o país com exceção do País Basco e da Catalunha. Nestas duas regiões, o Podemos foi a barragem aos independentistas - no País Basco, pela primeira vez, foi um partido nacional a vencer.

O PSOE teve o pior resultado da história mas respirou de alívio ao evitar a ultrapassagem pelo Podemos. Sanchez começou a noite eleitoral como virtualmente demitido mas terminou-a por cima: o resultado é péssimo, mas para as expetativas até foi bom. E a grande baronesa do partido, Susana Diaz, viu a sua Andalucia virar para o PP, fazendo-lhe perder a força interna de que necessitaria para apear Sanchez. Ironicamente, Sanchez pode ter saído reforçado destas eleições.

O Ciudadanos acabou por minorar as perdas mas os oito deputados perdidos face a Dezembro sublinham a má campanha de Rivera. O partido não é claro na sua mensagem e pagou caro a sua campanha quase exclusivamente focada contra a figura de Mariano Rajoy. Em vez de tirar daí ilações, Rivera ofereceu um longo e vazio discurso de vitimização relativamente à lei eleitoral e como ela prejudicou a representação parlamentar dos Ciudadanos. A má campanha culminou num mau resultado e numa má digestão dos resultados.

O que pode sair daqui? Só pode sair um governo PP. Mariano Rajoy aguentou 8 anos como líder da oposição (inimaginável em Portugal) e já vai nas 3ªs eleições gerais vencidas, de seguida. Desta vez ampliando fortemente a sua base de apoio e mostrando, com grande força, que afinal de contas já a 20 de Dezembro a maioria dos espanhóis pretendia uma solução de continuidade. Essa solução é agora inegável. Não pode ser um vergastado Podemos a alicerçar um novo Governo e o Ciudadanos, severamente punido pela sua antagonização face ao PP, não pode ignorar a aliança natural que tem pela frente.

PP + C's + PNV + Canárias terão 175 deputados, caso alcancem um acordo. Ficam a um deputado da maioria absoluta e empatando todas as contas no hemiciclo. Se o PSOE nunca votará a favor deste governo, também não poderá votar contra. Conseguiu uma vitória sobre o Podemos que seria verdadeiramente pírrica se à primeira oportunidade voltasse a virar os holofotes do Governo para os bolivarianos.

Foi a primeira grande derrota do populismo (de esquerda ou de direita) num país Europeu. É especialmente importante isso ter acontecido em Espanha, onde parecia altamente provável que mais cedo ou mais tarde o Podemos se instalasse no poder.

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