Como Centeno ganha todas as negociações

Ao fim de 8 mesitos de Governo é justo dizer que Mário Centeno ainda não perdeu uma única negociação.

Ele entra sempre em Bruxelas com a alegria com que uma criança de 5 anos de Alfândega da Fé entra no Oceanário de Lisboa e sai sempre com a face de quem esteve no Oceanário, sim, mas no lago dos tubarões. E, no entanto, nunca perde as negociações.

Há duas formas de ganhar sempre: ou se ganha sempre ou nunca se espera ganhar. Centeno entrou na luta partidária, a que habitualmente se vedavam os ministros das finanças (mais ou menos competentes, habitualmente preocupados em serem vistos como técnicos e não como jukebox de propaganda aparelhística), como nunca nenhum outro antes dele. Assumiu nessa altura que não esperaria ganhar nada desde que tivesse a única vitória que lhe interessava: ajustar contas com o Banco de Portugal.

É por isso que Centeno não se mostra minimamente afectado por, num espaço de 12 meses, sofrer derrotas bíblicas em assuntos que deveriam, para si próprio, ser linhas vermelhas. Não exaustivamente:

  • Preparou um plano macroeconómico que Costa foi desmentindo durante a campanha eleitoral;
  • O que sobrava do plano foi riscado à primeira nas reuniões de formação de Governo com PCP e BE;
  • Foi subalternizado nas discussões do Orçamento para 2016, em proveito de meras discussões políticas em círculos semelhantes a associações de estudantes;
  • Emendou algumas metas de crescimento a pedido de Bruxelas sem daí tirar consequências;
  • Sobre as sanções, a famosa frente contra as sanções saldou-se por 0 votos contra as mesmas.

O nosso Mário sai de tudo isto sempre da mesma forma. De sorriso atrapalhado e despreocupado. Como nos filmes, ele é aquele que contratamos para levar umas chapadas por nós. Ganha tão mais do que alguma vez teve (neste caso, o ganho é poder e protagonismo) que regressa de olho inchado e lábio cortado mas feliz.

Quando aceitou que lhe desfizessem o plano económico que traçou - que era naturalmente discutível - Centeno aceitou que ia ser apenas uma personagem. O homem encarregado de mostrar que Portugal não se despreocupava totalmente mas longe de fazer algo mais que comunicar essa ideia.

Naturalmente, o nosso ministro das finanças sabe muito antes de nós que os 2,2% de défice são inatingíveis. E que os 3% que são o limite superior aceitável (mas não o da credibilidade, pois suporia já um desvio de 36% face à meta inicial) o são também. Mas se levantar a lebre, Costa cai. E depois cai a sua oportunidade de lutar contra o Banco de Portugal.

Centeno sabe há meses que ninguém acredita nas suas contas. Ninguém o pode frontalmente dizer (típica postura Europeia de esperar primeiro por resultados que não deixem margem para dúvidas), mas também toda a gente sabe que o próprio Centeno nunca acreditou nas contas que estava a mostrar.

Agora com as sanções Costa prometeu uma grande frente de países contra as sanções. Centeno entrou fulgurante com o cachecol da seleção (fica sempre bem nestas alturas) e no fim: 0 votos contra as sanções.

Na realidade, nada disto parece importar. Até ser altura conveniente para eleições (e as sondagens teimosamente não mostram o PS a subir para alcançar maioria), tudo está dependente da realidade política parlamentar e não da realidade objetiva das nossas vidas. Como não há nenhum objetivo científico para alcançar, Centeno segue imparável sem derrotas. Vamos ver até quando o país aguenta o crescente fosso entre as necessidades políticas do projeto de poder de António Costa e as necessidades concretas da nossa economia.

Para já, todos os dados económicos e financeiros estão em franca e acelerada regressão. E já não falta tudo para isso chegar ao bolso de todas as pessoas.

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