O paradoxo da islamização europeia

Os ataques na Europa passaram a ser habituais. Dias depois de Nice, um adolescente afegão e orgulhoso detentor de uma bandeira do ISIS decidiu que os alemães também não deviam ter sossego.

Não é inédito na história da humanidade mas a Europa em particular e os ocidentais em geral têm uma escolha a fazer: defender ou não o seu modo de vida. Não podemos ao mesmo tempo pugnar por evoluções civilizacionais e sociais, tolerando a cada esquina que se instale no centro das nossas vidas um grupo que não acredita minimamente no que nós vamos decidindo.

É difícil defender modos de vida sem amplo consenso social. E aqui entra o paradoxo em que a Europa vive hoje em dia: a luta esquerda - direita, doentia, sectária e demente, também tomou conta da proteção das nossas conquistas civilizacionais.

Os políticos moderados não percebem que legislar e regulamentar opções culturais sufragadas pela generalidade da população não é um radicalismo ou um controlo obsessivo, mas sim de garantir a todos nós proteção e comodidade no nosso espaço. Se a extrema direita tem um discurso fácil (e retrógrado) relativamente à forma de limpar as metástases de uma islamização típica da Idade Média, a esquerda e a extrema-esquerda operam no paradoxo que está a bloquear consensos ao centro.

A mesma esquerda que pugna por igualdade entre raças e entre sexos, pelo casamento homossexual, pelo direito a mudar de género, pelo direito às barrigas de aluguer, pelo direito ao aborto e que factualmente tem estado na liderança dos progressos civilizacionais neste tipo de direitos, é a mesma que responde a uma ameaça real com sonsos apelos à tolerância.

Sejamos muito claros: se conseguimos os progressos que conseguimos em direitos sociais, é porque culturalmente existe um consenso que permite alcançá-los. Ao não proibir formas radicais do Islão ou até a ignorar coisas tão simples como o direito das mulheres andarem destapadas (algo que aliás interfere bastante mais do que com as mulheres, visto que o contacto visual é uma das premissas da confiança das sociedades ocidentais - e como tal não devia ser violado em público), está-se a garantir que, a prazo, tudo o que conseguimos pode regredir.

Não me refiro ao impacto dos presentes actos terroristas, embora eles interpretem a crescente presença de radicais islâmicos no meio de nós, mas sim ao mero efeito demográfico: nos mais importantes países Europeus já é uma evidência e uma inevitabilidade que, a prazo, vai haver uma maioria religiosa islâmica. Serão todos radicais? Não é certo que o sejam, mas como demonstra a Turquia esse caminho é sempre possível.

Deste modo, ou se baliza culturalmente a Europa que temos e de que nos orgulhamos (com todas as suas raízes religiosas - também islâmicas, entre oturas - e laicas), ou a prazo aquilo que tantas gerações de nós alcançaram pode ser posto em causa por questões meramente demográficas. Liberdade não é anarquia, só podemos ser livres se tivermos o nosso espaço para o ser.

É paradoxal que quem mais lute pelas conquistas sociais seja quem mais ignore o potencial de ameaça que temos pela frente. Gostarão de construir castelos na areia?

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