O país que nos deixam os nossos pais

Vamos simplesmente ignorar inclinações políticas, dogmas económicos, preconceitos ideológicos e por aí fora. Para alguém nascido na década de 80 ou na década de 90, que país têm e terão durante a sua vida?

Estou cada vez mais convencido que em Portugal grande parte dos motivos do nosso atraso são geracionais. Tal como em alguns outros em países, a geração saída de uma revolução política acabou por incinerar as 2 ou 3 gerações imediatamente consecutivas. Portugal viveu séculos de feudalismo, o que explica que apesar de termos sido os reis da descoberta de novos mundos a população no seu geral nunca tenha sido realmente livre. A revolução industrial tardia coincidiu com o apodrecimento político da monarquia. A 1ª república foi de má memória e depois tivemos o Estado Novo que significou sem dúvida alguns progressos mas serviu para virar Portugal demasiado para dentro de si próprio.

A geração dos nossos pais, mais ou menos os nascidos nas décadas de 50 e 60, estava no sítio certo à hora certa: foram a última geração que viveu em ditadura e, por isso, não participaram nas lutas pela liberdade. Mas foram já a primeira a beber das vantagens da abertura ao mundo do nosso país. E foi catastrófico.

Quando olhamos à nossa volta, pessoas na casa dos 20 aos 40 anos, vivemos num país de livre expressão. E é só. As nossas restantes liberdades, sobretudo aquelas que são mais relevantes para constituição de família, bem estar e poder económico, foram cerceadas sem qualquer problema. A geração de Abril criou no e à volta do Estado gigantescos esquemas piramidais que só garantiram uma coisa: o progresso dessa geração. A geração antes, dos seus pais, vive maioritariamente com reformas minúsculas e objetivamente excluídos de qualquer real integração na classe média.

A estatização da nossa economia, muito mais transversal do que meras fotografias jornalísticas exibem, condenou o país ao marasmo económico. E condenou quem chegou atrasado a não poder fazer parte desse sistema privilegiado. À volta vemos hoje uma privilegiada geração de grisalhos - não tiveram de lutar por nada: a liberdade caiu-lhes no colo, os empregos caíram no colo, os apoios sociais caíram no colo. Os seus pais em muitos casos mantém-se ativos para lá dos 70 anos para conseguirem sobreviver. Os seus filhos chegam aos 40 anos sem família constituída, sem meios para ter filhos ou para fazer prova de boa solidez financeira para serem também proprietários.

Os esquemas piramidais funcionaram na perfeição e continuam a ser mantidos por uma elite que é tudo menos uma elite de lideranças. É uma elite de poderes instalados. De académicos que foram secando as suas instituições cujos lugares passaram a depender apenas de boas graças pessoais. De funcionários públicos que acreditam ter direito a metas de rendimentos fixadas consoante as suas expetativas pessoais e ignorando as capacidades que o resto do país (o resto das pessoas) tem para lhes proporcionar tais condições.

Olhemos à nossa volta e vejamos as grandes conquistas:

  • Na educação, montou-se um ensino capaz de formar as gerações mais bem preparadas, como se gosta de dizer. O que vemos se entrarmos mais em detalhe? Excesso de capacidade instalada. Mas as condições são iguais para todos? Não. Quem chegou ao ensino até há 20 anos atrás vive como um rei - os salários podem não ser absurdamente elevados, mas objetivamente têm muito menos horas de trabalho anual que a maioria das profissões. Quem chegou depois disso sobrevive com contratos a prazo, muitas vezes de poucos meses. Não tem capacidade sequer de substituir professores mais velhos claramente menos competentes. Não há uma luta por mérito. Há uma classificação por idades;
  • No emprego público em geral maximizou-se o Estado até final dos anos 90, em relações laborais ultra-estáveis e com salários muito acima da média nacional (ainda hoje em dia, numa diferença que está novamente a aumentar). Quem pôde ser empregado até essa altura? Em grande medida, as pessoas que nasceram até à revolução de 74. Quem chega depois disso? Segunda categoria, claro. Relações menos estáveis, salários piores e nem sequer direito à mesma redução da carga horária.
  • Na segurança social, a solidariedade intergeracional ficou na gaveta quando foi para dar pensões aos pais. Não contribuíram? Então têm uma pensão miserável. Houve um boom demográfico? Então vamos por aqui um sistema contributivo que garanta umas reformas porreiras no fim da carreira. O problema? A geração que aproveita do sistema fez muitos menos filhos. Com isso, há muito menos contribuições e há pessoas que felizmente vivem muito mais anos. O que se faz? Simula-se a sustentabilidade do sistema, com acertos automáticos na idade da reforma e na fórmula de cálculo da pensão. Sim, a segurança social no plano puramente económico é sustentável com a modalidade que tem. O que é que os grisalhos que mandam no país nunca dizem? Que os desgraçados que virão a seguir a eles terão uma pensão igual a 30% do salário médio de toda a carreira contributiva. Hoje há pessoas reformadas com 90% do último salário que tiveram. Vêem a diferença? Um óbvio esquema piramidal de entrada obrigatória em que quem entra agora já sabe que vai ficar na ruína. Pior? As contribuições hoje são muito mais elevadas. Portanto a geração grisalha teve contribuições mais baixas, pôde alocar a esquemas de capitalização para complemento de reforma. Quem vem a seguir? Pensões mais baixas e contribuições mais altas que retiram fatias importantes de poupança potencial que podiam ser alocadas a complementos de reforma.

Temos portanto uma sociedade que existe para perpetuar um modelo de redistribuição de riqueza e de bem-estar social que só funciona para uma geração específica. Conseguiram empregos estáveis, bons salários, boas reformas. Conseguiram comprar casa cedo, pagá-la, ter filhos, pagar-lhes os estudos e viajar.

O que terão as gerações como a minha? Salários comparativamente mais baixos. Muito mais dificuldade em obter condições para comprar uma casa ou constituir família. Bastante mais dificuldade em viajar para o centro da Europa de férias ou, em geral, para qualquer país evoluído. Teremos à nossa espera (é absolutamente certo, está previsto na lei) reformas que, comparativamente e no seu tempo, serão equiparáveis às dos nossos avós. Aqueles que vimos (e alguns ainda vêem) sair todos os dias às 07h da manhã para cavar a terra, aos 75 anos. Teremos conseguido poupar muito menos - deixaram-nos um país ultra endividado, nas empresas, nas pessoas e no Estado. Os impostos serão tendencialmente mais elevados, e mais subirão quanto maior for a continuada resistência para mudar hábitos inequivocamente privilegiados.

Tudo isto é catastrofista? É claro que é. Desafio no entanto a provarem que não será assim.

Em nome de uma geração que não sabe o que é lutar por nada de realmente relevante na vida (liberdade, poder económico, formação de família), estamos condenados a ser esmifrados até ao tutano. Nada para nós, tudo para eles. Não ver que Portugal tem um crescente problema inter-geracional só o está a agravar - o tempo para o corrigir escasseia cada vez mais, como é óbvio.

É preciso reformar a segurança social para a contribuição das novas gerações valer a pena? Nem pensar, nada de mexer nas pensões a pagamento! É preciso promover o mérito na administração pública? Nem pensar, a miudagem nova pode saber mais disto mas que vá para a fila de espera, que quem lá está é que não pode ser sujeito a nenhuma violência como ter de encontrar profissão diferente da que estudou. E os exemplos continuam por aí adiante.

Claro que o que fiz neste texto é uma generalização brutal. A democracia é assim. A escolha de uns é o afunilamento de opções de outros. Votamos e respondemos pelas opções de todos em conjunto, porque é isso mesmo que faz uma sociedade democrática. É por isso inequívoco que a nossa sociedade dos últimos anos, dominada pelos numeroso baby-boomers, construiu um modelo social de rápido proveito próprio. Pela primeira vez Portugal vai conhecer gerações que não vão apenas estagnar face à qualidade de vida dos seus pais, como vai conhecer muito mais dificuldades e provações. É absolutamente inédito na nossa história.

Até quando ignoraremos o direito de distribuição de sacrifícios entre gerações? Será o cabelo grisalho uma prova de superioridade existencial? Perdoem-me o desencanto, mas quando oiço falar em direitos adquiridos e na defesa de tudo tal como está só me posso perguntar se as gerações privilegiadas gostam realmente das que geraram. Tenho fundadas dúvidas.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *