Questões incendiárias

Os catastróficos incêndios dos últimos dias merecem várias questões que me parecem tão ou mais relevantes até do que apostar na prevenção. A aposta na prevenção está no discurso político sobre fogos como a necessidade de mais cooperação entre polícias para o combate ao terrorismo internacional - todos o defendem quando os incêndios acontecem, nada se faz durante o ano. Ou quase nada, já lá vou.

Do desastre da Madeira aos incontrolados incêndios no continente, há várias questões práticas que me parecem tão pertinentes como incendiárias:

  • Está a ANPC realmente capacitada para gerir e tomar decisões sobre eventos de maior amplitude?
  • Houve realmente alguém na proteção civil que achou que o incêndio no Funchal estava controlado?
  • Houve realmente alguém na proteção civil que achou ser dispensável pedir auxílio adicional para o país, seja no continente como na Madeira?
  • Onde andam os meios aéreos este ano? Em duas semanas de pico houve uma disponibilidade de meios aéreos mais própria do mês de Janeiro;
  • Porque foram as forças armadas afastadas do dispositivo de combate já este ano, quando o ano passado se tinha concluído pela sua inclusão?
  • Quem é que aconselhou o primeiro-ministro a dizer ontem, já no meio do total desastre do Funchal, a dizer que a ajuda externa será pedida, talvez, lá para o fim de semana?

Estas são questões práticas e graves. A prevenção é fundamental mas leva tempo - o dispositivo de combate está claramente em mau estado, seja do lado da coordenação seja mesmo dos meios efetivamente disponibilizados. Há meios desaparecidos em combate e há reações extraordinariamente lentas para situações que não podem esperar e se podem alterar a cada 15 minutos. A Europa não está toda a arder como nos fazem crer mas nem assim pedimos de imediato meios para estancar rapidamente uma situação explosiva de Norte a Sul. E sendo os meios escassos por natureza muito mais fundamental é decidir rapidamente.

Depois há as questões politiqueiras, para tratar mais para a frente mas que não deviam ser esquecidas. Os sinais são preocupantes:

  • Onde anda o Ministério da Administração Interna? De que forma nos pode ser garantido que as cadeias de comando da ANPC estão à altura da responsabilidade?
  • É mesmo verdade que os principais responsáveis do MAI estão a gozar férias num dos períodos do ano cuja mobilização permanente deve ser óbvia e é normalmente acautelada?
  • O primeiro-ministro anunciou uma revolução nas florestas: é para mudar o quê ao certo? Onde está o Ministro da Agricultura e Florestas? É o Gabinete do PM que gere a ANPC e a reforma florestal já?
  • Quem agora fala tão levianamente de aposta na prevenção, o que fez à promessa eleitoral de por refugiados a limpar matas? Os nossos desempregados com apoios sociais não podem também desempenhar um papel? É extremamente fácil vir falar em novas mudanças de paradigma quando há oito meses se tinha um plano e logo foi esquecido;
  • Como é que o Governo Regional da Madeira toma como boas indicações de controlo de um fogo às 17:00 que às 19:00 começa a engolir o Funchal? Como podemos ficar tranquilos relativamente à tutela dos que devem zelar pela nossa segurança e dos nossos bens?
  • Por último, alguém diga ao ministro do ambiente para evitar falar publicamente. De manhã fala em situação benigna nos incêndios florestais, à noite aparecem 4 pessoas mortas no Funchal. A falta de cuidado e de aviso nas palavras já não são uma estreia para ele.

Tudo isto é politização e nada disto é politização. Sobram muitas interrogações práticas e políticas. Entre as relativizações de todos os tipos e as vontades de fazer sangue cegamente, há vidas de pessoas que mudaram para sempre. Perdem-se vidas humanas, perde-se património natural, perdem-se casas e fábricas. É demasiado sério para nos virem dizer que não há nada a fazer e é demasiado sério para nos virem com hipocrisias - a dona Catarina Martins ontem adoptava frases de Gustavo Santos para se solidarizar com o povo da Madeira depois de ano passado só ter faltado chamar criminosos aos envolvidos no combate a incêndios.

Deixar uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *