Não haverá rentrée sem confronto

O PSD entrou hoje oficialmente na nova "época" da política nacional e Passos Coelho esteve igual a si próprio: teimosamente discursando de improviso, detalhando excessivamente explicações de realidades conhecidas mas, e é um "mas" importante, muitíssimo alinhado com a realidade factual e indesmentível.

Passos Coelho não é um político de mão cheia embora tenha perfil de primeiro ministro de mão cheia. Só que quando se está na oposição o perfil executivo não chega - é preciso muito mais. Por isso Passos Coelho esteve muito bem em todas as fases de diagnóstico e acabou por não conseguir partir daí para arrancar um arranque de época entusiasmante.

Só por duas vezes votei PSD na vida mas é hoje evidente que o PSD é o único partido do espectro partidário razoavelmente bem definido - e isso acontece devido a Passos Coelho.

  • O CDS pós-Portas está em risco de se perder entre o assistencialismo e uns fogachos de liberalismo que alguns dos seus mais brilhantes actores tentam introduzir;
  • O PS não é nada nos dias de hoje. É um projeto de poder, o que possa ou não defender em algum momento tem única e exclusivamente a ver com aritmética parlamentar;
  • O PCP é um partido anti-democrático;
  • O Bloco de Esquerda não quer deixar de ser um movimento de elites urbanas totalmente desligadas da vida do cidadão comum.

O PSD é pelo menos um partido que tem um claro pendor liberal nos dias de hoje, o que normalmente será o absoluto centro do espectro político ou até à esquerda desse panorama (como nos EUA). Essa definição acontece episodicamente pela coincidência da sua liderança ter essa identificação. Quando sair, como se percebe dos movimentos de oposição interna, o PSD voltará a um registo semelhante ao do PS: será o que as aritméticas eleitorais ditarem.

Mas à direção de Passos Coelho cabe também a responsabilidade de assumir o seu projeto. O diagnóstico que é efetuado, e que a meu ver não só é fácil de realizar como está de facto bem feito, tem depois de ter uma tradução num projeto. E é aqui que os problemas começam e é por isso que a rentrée política do partido foi tão morna e sem impacto.

O PSD, pela forma como diagnostica os problemas do país, tem pelo menos a seguinte agenda:

  • Mais liberdade económica e recentrar o Estado como facilitador da iniciativa privada e não como operador económico;
  • Reforma da segurança social;
  • Revisão de tudo o que o Estado garante tendo em vista os gravíssimos problemas inter-geracionais que se estão a agravar, em prejuízo das gerações mais novas;
  • Forte compromisso com o projeto europeu, um projeto de colaboração e de paz que faz cada vez mais sentido apesar do que dizem os bonecos do ventríloquo Louçã.

Isto é o que se subentende das posições que o partido tem tido sobre os problemas que avalia. Só nestes quatro pontos já está a oportunidade de um vasto programa político e reformista para o país. Se o PSD está a falar sozinho é porque de facto o momento político não permite mais um PS dialogante ao centro e portanto Passos Coelho tem de ser consequente: esperar eternamente por um diálogo que não vai acontecer não é justificável.

Portanto o que há a fazer parece-me claro e tenho fundadas dúvidas de que os riscos que comporta possam representar um maior prejuízo eleitoral. Claro que a transformação do país não é um tema popular - entrará necessariamente em confronto com todas as camadas da sociedade que estão mais protegidas e que têm acesso a voz mediática - portanto, acesso a meios efetivos de destruírem projetos políticos. Mas também estou em crer que a população portuguesa respeita hoje muito mais quem assume necessidade de políticas pouco populares (vejam-se os resultados das últimas legislativas) e há largas franjas da população cujo ostracismo é crescente: o setor privado, as gerações mais jovens e outros grupos se podem identificar.

Posto isto, não haverá reentrada do PSD na política nacional se o partido não partir para o confronto. Quer reformar a segurança social mas não tem interlocutor no Governo? Então avance com as suas propostas e aprofunde o diagnóstico. Digam quanto é que as gerações jovens vão receber de reforma se nada for feito. Expliquem com números e com o texto da lei existente. E apresentem soluções, mesmo que passem por cortes imediatos nas pensões a pagamento (coisa que me parece mais do que inevitável e da mais elementar justiça inter-geracional). Vai ser polémico? Sim. Vai haver gente a imolar-se pelo fogo pelas propostas a realizar? Sem dúvida. Até é desejável. Mas só assim se pode acreditar que o PSD tem mesmo vontade de aderir à agenda que indiretamente parece referir nos seus diagnósticos e que essa pode ser a resolução para os maiores problemas do país.

O problema do défice ou da economia a crescer pouco hoje em dia são minundências comparativamente com o terror demográfico, o peso dos encargos (impostos e outras contribuições) nas gerações mais novas, os privilégios que hoje são pagas por gerações que nunca os irão ter ... enfim, o drama de um país que promete às novas gerações uma vida muito pior, muito mais precária e muito menos planeada que a dos seus pais.

Se o PSD insiste neste tom morno e improvisado isso será, na realidade, uma colagem ao mais triste e despudorado PS da nossa história. Rentrée não é fazer tudo igual. A rentrée só existe se se fizer algo diferente.

PS: E sim, Passos Coelho acertou totalmente relativamente ao esgotamento do governo. Como projeto político existiu para reverter políticas anteriores e entregar a BE e PCP as compensações que exigiram. Como se tem visto, passada a onda de reversões, o Governo navega à vista à espera do melhor momento para ir a eleições.

Deixar uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *