O Louçã de voz doce e olhos azuis

A Dra. Catarina Martins deu hoje uma entrevista interessante ao Público onde abre o livro numa conversa sincera. Esta é uma prerrogativa importante: se uma conversa com um político nos for vendida como sincera, estamos mais predispostos a deixar-nos absorver por ela. Se for uma conversa formal, de âmbito sobretudo sério, desligamos.

Com Catarina Martins nada é um acaso ou descomprometido. A teatral líder do Bloco não o é só por ser actriz de profissão - aprendeu com Francisco Louçã muitas das mais relevantes técnicas de comunicação política. E isso observa-se hoje nesta entrevista que reputo desde já como o exercício de hipocrisia política do ano.

A simpática líder do Bloco traveste o seu discurso com a sinceridade de quem decora de forma magistral um guião de manipulação colectiva: sonhadora, sincera, ingénua e até, imagine-se para uma actriz e líder política, tímida! Esta é a caracterização de fundo que permite à personagem emanar desta entrevista no território que lhe interessa: o da superioridade moral e o de alguém que se sacrifica por algo que considera menos mau para o país do que a sua alternativa.

A declaração de que se arrepende da Geringonça todos os dias é uma desfaçatez inimitável, por várias razões: não teve sequer a menor iniciativa para de facto fazer parte do Governo, assume por todo o lado que o principal projeto não é algo que una Bloco e PS mas sim lutarem contra algo que venha da direita e no fim, de olhar cândido e ternurento, pisca os olhos dizendo-nos que carrega esta pesada cruz todos os dias, mas fá-lo porque a Direita, veja-se bem, parte do princípio que as desigualdades não se combatem, contrariamente à impoluta esquerda, a única que pode garantir que seres humanos sejam tratados como tal.

Ninguém se engane: no meio deste tratado de hipocrisia e populismo político confirma-se que o Bloco de Esquerda aprovará tudo o que o Governo quiser que aprove enquanto houver uma desculpa que seja mais forte do que os impactos das políticas. Enquanto for mais fácil e mais duradoura a ideia de que é a Europa que nos condiciona, o Bloco até poderá aprovar um aumento de impostos para o dobro da carga atual. Se e só se a segunda passar a ser mais forte mediaticamente é que o Governo corre perigo. Por isso Costa e demais membros do Governo têm aproveitado todos os motivos para carregar nas costas da União Europeia o peso dos seus insucessos, incompetências e falhas de liderança política.

Enquanto a tese anti-europeia for facilmente ventilável (e a nossa comunicação social é terreno fértil para isso), o Bloco poderá continuar saltando alegre pelos campos, com o poder factual nas mãos, aprovando o que o tolo do Governo quiser (esta é uma apreciação que se lê facilmente na entrevista de Catarina Martins, entre linhas) mas continuando a conquistar as fatias do eleitorado que lhes são mais convenientes e que lhe permitirão, a prazo, reforçar-se.

Diria portanto que esta entrevista confirma o que já era óbvio: este Governo sobreviverá enquanto a ideia do inimigo externo se sobrepuser à análise crítica interna. É nisso que o Governo aposta e é esse o manto protector que permite este cinismo épico da voz de Louçã. Não há nada de substância a analisar - se Portugal produz para redistribuir, se a política em curso vai de facto permitir melhorar a vida do país, etc. Está tudo nas ondas mediáticas: enquanto se agitarem para o lado certo este caminho está automaticamente validado.

Para ler o Bloco de Esquerda não basta saber interpretar as letras. É preciso conhecer as origens do movimento e a dissimulação que ele supõe. A Geringonça não está nem mais nem menos ameaçada do que antes desta entrevista, está exatamente onde sempre esteve: é fundamentalmente um projeto contra algo e não a favor de algo. A sua bonança depende apenas da resiliência das teses orwellianas que a defendem do mundo exterior.

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