Douro, CP e sindicatos

A linha do Douro é por estes dias um exemplo do que corre mal a nível nacional com os caminhos de ferro. A fortíssima procura esbarra numa oferta ao mesmo tempo desadequada e pouco fiável. Nos últimos dias têm-se repetido as notícias de comboios sobrelotados, passageiros a ficar em terra e operadores turísticos descontentes.

Os problemas não são novos mas adquirem este ano novos contornos com um mistura explosiva de atributos. A administração da CP terminou mandado em Dezembro e nem foi reconduzida nem substituída - está em gestão, sem saber o dia de amanhã. Por outro lado, na CP como em outros organismos públicos, assiste-se este ano a uma cativação de verbas sem precedentes que tritura ainda mais a já reduzida capacidade operacional da empresa.

Se numa linha deserta isso pode passar ao lado das prioridades (se bem que linhas dessas, felizmente, já quase não temos), o caso do Douro é paradigmático do que vemos em várias outras, do Minho ao Algarve, passando até pelo serviço de longo curso na linha do Norte.

Em tempos recentes, os sindicatos da CP ergueram as suas vozes contra a destruição da CP. A destruição da CP consistia, na altura, no aluguer de composições a Espanha para substituir material em fim de vida. A sua substituição permitiu baixar custos de operação e generalizar o serviço com ar condicionado a todas as linhas regionais sendo também inegável que os comboios que vieram possuem condições de conforto muito superiores aos que tínhamos. No entanto, a suposta traição ao país com aluguer de comboios a Espanha foi vista como um desastre, uma ruína.

Atualmente, e já com os comboios por cá ao serviço, a CP depara-se com dificuldades operacionais de várias ordens: falta de pessoal e falta de material circulante à cabeça. Não se percebe como um governo que faz dos transportes uma operação pública obrigatória não fornece condições a essas empresas e os clientelistas sindicatos não vêm a terreiro protestar contra uma realidade que põe claramente em causa a empresa e o modo ferroviário no médio prazo.

A situação da frota não é menos preocupante. O material circulante, como em qualquer empresa de transportes públicos, tem de cumprir um ciclo de manutenção certificado e que prevê diversos tipos de operação - das manutenções preventivas do dia-a-dia às revisões gerais. Estas últimas são classificadas como investimento, pois trata-se de repor vida útil. Estas últimas são afetadas seriamente pelas cativações monstruosas deste ano a que se soma um Conselho de Gerência em gestão e sem autonomia de gestão.

No Douro a resolução não é fácil mas existem soluções. No depósito de Contumil estão paradas várias carruagens, sem ar condicionado é certo, que poderiam ser uma solução provisória numa empresa sem meios para nos próximos anos dar a volta decisivamente ao serviço. O que falta? Falta serem reautorizadas a serviço, intervenção oficinal com um custo reduzido que a CP não pode mesmo assim pagar. E faltam locomotivas diesel, sendo que a CP tem dezenas em semelhante condição por todo o país e que necessitariam de intervenção oficinal ligeira para regressarem ao serviço.

Se no passado difíceis processos de renovação de frota foram considerados ruinosos mesmo quando todos os dados permitem observar a melhoria evidente na exploração (quer na vertente económica quer no serviço prestado), porque temos os sindicatos da CP, habitualmente tão fogosos, completamente calados perante uma falta de meios incompreensível que impede a empresa de responder a uma procura forte e que permitiria encaixar tanto dinheiro, com o "bónus" de a imagem da empresa e do meio ferroviário ficarem na lama?

Afinal, que interesses existem? Estará a CP a caminhar para uma rápida privatização por completo default operacional? O que pretende ao certo o executivo por nem sequer tomar decisões sobre a gestão da empresa? Porque é que a CP não pode investir em produtos de risco quase zero e retorno garantido? A quem aproveita esta situação?

Tudo questões a que os sindicatos sempre estiveram tão atentos e que agora, perante uma factual e objetiva destruição de valor, desviam olhares.

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