Símbolos, ideologias e religiões

A proibição dos burkinis é o assunto social deste Verão e tenho óbvio interesse.

Vejo muitos confundirem proibição de burkinis com limitação à liberdade individual, em particular a religiosa, e outros, certamente mais tontos, que vão buscar imagens de freiras quase todas tapadas na praias para dizerem que está a haver duplicidade de critérios.

Uma coisa são símbolos, outra são ideologias e no fim temos as religiões. As fronteiras dos países existem por razões culturais: as pessoas sentirem-se mais próximas de outro grupo ou eventualmente sentirem-se únicas. Veja-se o caso catalão: qualquer pessoa que visite a Catalunha sente uma diversidade cultural face ao resto de Espanha que me parece justificar que se discuta o regime de autonomia ou até a independência da região.

Parece-me perfeitamente lícito, e até desejável, que França possa limitar o uso de Burkinis ou Burkas ao ambiente privado de cada pessoa. Não se trata de proibir o Islão mas de proibir alguns símbolos do Islão. Não se trata sequer de interferir na ideologia dessas pessoas - a forma como se relacionam dentro da família, por exemplo. Tratam-se de símbolos. A cruz suástica não foi proibida à toa. Era um símbolo perfeitamente normal antes dos nazis o adoptarem. As suas origens são milenares e havia até importantes empresas que a usavam como seu logótipo. Porque se proibiu então?

Porque a cruz suástica se tornou símbolo de massacres cometidos por uma ideologia desprezável, as culturas ocidentais (e não só) movimentaram-se face à sua proibição. Não porque a cruz fosse um símbolo só dos radicais nazis, mas porque era incontornável que era a isso que era imediatamente associada.

Quando se proíbe o burkini não se está a assumir que todos os islamitas são radicais ou que vem tudo de uma celebração salafista. Acontece que algumas correntes radicais do Islão têm-se pautado por comportamentos que lesam claramente os padrões culturais franceses (e, em geral, europeus): atentados terroristas, depreciação subhumana das mulheres, fortes condenações de gays e outros subgrupos da população. E há símbolos que se associam a essa devassa cultural que é obviamente inaceitável cá: a burka e agora, por arrasto, o burkini.

Não é uma questão técnica: se o burkini tapa ou não a cara. Não é ignorar que há muita gente que usa burkini e que se calhar é tão liberal como nós nos direitos sociais ou até que se tratem de mulheres tão ou mais emancipadas que as ocidentais. Nada disso. É simplesmente encarar que aquilo, por apropriação dos radicais (e nenhum de nós tem culpa disso), passou a ser um símbolo de horrores sociais e humanitários que não queremos e temos direito a não querer encarar nas ruas, nas escolas, nos hospitais.

Voltando ao início, as fronteiras mais do que raças, economias ou fluxos demarcam culturas. Cada cultura tem os seus símbolos e cada cultura tem direito a sentir-se ofendida e provocada por outros símbolos. Ou acham que irmos a uma mesquita calçados faz de nós mais desrespeitosos pelo profeta? Claro que não. Mas as pessoas que ali encontramos vêem nesse símbolo um sinal de desrespeito. E por isso nos descalçamos.

Não é portanto nada de extraordinário banir alguns símbolos, sem prejuízo de se poderem perseguir políticas de mais longo prazo que assegurem a correcta educação (e formatação cultural, é disto que se trata) de quem chega. É perfeitamente natural. Se alguém achar que na sua vida a ostentação de um dos símbolos banidos é mais importante do que tudo o resto, tem imensos países para onde ir neste fantástico planeta e, com essa prioridade, será certamente bem recebido. Afinal, é de liberdade de escolher onde viver e por que padrões de vida que falamos.

A tolerância não é um valor absoluto. Os valores culturais não são absolutos, não são científicos. Poderemos proibir 1 milhão de coisas que continuaremos a ser tolerantes face a praticamente todos os outros locais do mundo. A nossa tolerância não existe para ser coagida, mas para ser exercida. Em função do nosso padrão cultural. Como é natural.

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