LFV 2016, a inédita bonança

O presidente do Benfica compareceu ontem na TVI e TVI24 para uma entrevista pré-eleitoral. Não vi a primeira parte mas por todos os comentários que li pareceu-me ser mais do mesmo: se as perguntas que se fazem são sempre as mesmas, as respostas dificilmente serão diferentes.

Já a segunda parte na TVI 24 seguiu um modelo pouco habitual: Diamantino, Domingos Amaral e Pedro Ribeiro foram os responsáveis por um modelo a meio caminho entre entrevista e debate. Por princípio sou mais favorável a um modelo mais "jornalístico"mas o certo é que à falta de preparação dos pivôs dos nossos telejornais, esta foi uma forma de realmente ouvirmos o presidente de um clube falar diferente, ser objetivo e ser obrigado a falar de assuntos menos cómodos. Fica a reflexão para os jornalistas da nossa praça...

Que impressões tirei da entrevista / debate? Que Luís Filipe Vieira aparece em 2016 mais descontraído por um modelo que finalmente funciona. O que parecia uma promessa ridícula em 2012 foi não só cumprida como ultrapassada (3 títulos nacionais, 2 finais europeias e mais de 50 títulos nas principais modalidades coletivas) e isso vale-lhe aliás ir a eleições sem oposição e, pela primeira vez no seu longo consulado, sem particulares hostilidades de nenhum grupo de adeptos do clube.

O que fica da entrevista é uma evolução clara: Vieira não é hoje mais um líder ausente a braços com as suas empresas mas um presidente a tempo inteiro. Já não é apanhado na curva, sabe as respostas de cor e apresenta uma visão para tudo, concorde-se ou não com ela. E não está disposto a abdicar de uma condução mais controlada do projeto futebolístico, por oposição a anos de inversões de política de 6 em 6 meses ou a investimentos massivos de ano para ano. Há um facto no final deste mandato que é incontornável: o futebol é resultado de uma política do Benfica, gerada por muita gente, e não mais uma coutada pessoal do presidente ou do treinador. Há quem prefira uma gestão mais pessoal, eu claramente prefiro e sempre preferi esta abordagem coletiva e profissional.

O formato da entrevista / debate até podia dar azo a mais contradições mas não será por isso que devemos ignorar as que existiram. Parece muito claro que a NOS valorizou em outros contratos de TV/patrocínios as receitas televisivas de modo a não necessitar de rever automaticamente o contrato do Benfica e Vieira continua a limitar-se a dizer que quer resolver as coisas com a NOS e quer rever o contrato. A letra do contrato não é a única que vale, muito menos neste caso, e parece-me até pelo que o presidente deixou no ar que o Benfica pode e deve ser mais duro na defesa dos seus interesses.

Em termos de comunicação é claro que não foi perfeito mas genericamente controlou bem os tempos e o tom. Não achei que reagisse particularmente mal a algumas perguntas picantes dos entrevistadores mas não resistiu ao discurso fácil de só poder errar quem lá está a decidir. Duvido que alguém o queira trucidar hoje em dia e portanto pode assumir outro tipo de postura e falar sem complexos dos erros que vão sendo cometidos - anormal seria não haver erro nenhum (eu pessoalmente começaria logo a suspeitar...).

O retrato que sai a cerca de mês e meio das eleições é a de que Vieira finalmente acertou no modelo. A partilha de responsabilidades por uma estrutura de profissionais competentes rende sempre dividendos e a realidade é que não têm sido poucos. E embora tenha sido sempre um defensor do uso da formação (mesmo quando era sexy dizer que putos não ganham campeonatos, nomeadamente por ex-fãs do Jorge Jesus), tomo os repetidos sublinhados da escola do Seixal como fundações do Benfica hoje e no futuro como uma mera fasquia que leve toda a gente no clube a tentar a superação. Não mais do que isso.

Deste mandato de Luís Filipe Vieira parece-me que só há duas grandes questões a merecer debate e crítica dura:

  • Uma comunicação poucas vezes cuidada e promotora de figuras pouco dignificantes do clube;
  • Uma teia de negócios com passes de jogadores que, apuradas as contas, renderam uma diminuição raquítica das obrigações financeiras da SAD apesar do volume global de negócios que foram realizados.

A entrevista não tocou em nenhum destes pontos e, por aqui, não me deixou satisfeito. A satisfação foi a de ter visto temas mais concretos respondidos de forma mais desassombrada do que é costume. As vitórias constroem os líderes, no futebol mais do que na generalidade das atividades.

Em 2016, a opção para mais quatro apenas pode ser Luís Filipe Vieira. Merece a oportunidade de aprofundar aquilo que hoje em dia é realmente um projeto estratégico com cabeça, tronco e membros. No fim cá estaremos para fazer as contas.

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