Cargas e comprimentos, Portugal em 2022

Se, e é um grande "se", Portugal implementar mesmo o plano de renovação das ferrovias nacionais - história que já vem do PETI3+ e foi renomeada com este Governo, em 2022 Portugal vai ter uma série de linhas aptas a comboios de mercadorias com 750 metros: Minho, Norte, Beira Alta, Beira Baixa, Linha de Sines, Sul, Alentejo e Évora, abrangendo em grande medida as três ligações internacionais a Espanha e o eixo litoral que as liga.

Assim, lá para 2022, os que simplisticamente vêem nos comprimentos de comboios a grande prioridade para aumentar a competitividade do modo ferroviário irão mudar de discurso. Uns preferirão a comodidade da incompreensão dos modelos de negócio das empresas presentes no sector - é sempre muito cómodo pensarmos que não aproveitam o que disponibilizámos por má vontade - e outros farão a pergunta: mas porque é que os custos de transporte não diminuem quanto baste com a possibilidade de circularem comboios mais longos?

Já comentei que a simplificação do PETI3+ foi especialmente má no atributo porventura mais relevante - o perfil longitudinal das nossas vias, cuja promessa de correção prometia acabar com extensas e inclinadas rampas no percurso ferroviário português, apontando até com um objetivo: 1400 toneladas / locomotiva após as intervenções.

Ora os 750 metros de comprimento são de facto necessários mas sobretudo para se explorarem potencialidades em linhas mais planas. Dos eixos todos que já referi, as 1400 toneladas / locomotiva serão apenas possíveis entre Poceirão e Elvas e, com muito boa vontade de arredondamento, entre Lisboa e Porto. Ou seja, não haverá nenhum itinerário ininterrupto entre os nossos portos e principais indústrias e as nossas fronteiras capaz de permitir este objetivo.

Assim, em 2022, continuaremos a ver circular comboios com 400 metros apesar dos belos e longos resguardos que vão aparecer no Minho e Beira Alta, por exemplo. É fácil de perceber porquê - mais um exemplo de que observar a prática é fundamental antes de teorizar em abstracto.

Um comboio de contentores de um tráfego de importação/exportação, com ou sem epicentro nos portos, apresenta habitualmente entre 350 e 450 metros, com uma tonelagem a rondar as 1100 toneladas. É este número (até ligeiramente inferior) que é permitido pelos perfis longitudinais de Minho, Beira Alta e Sines, três das linhas mais determinantes para o que será o nosso amanhã no transporte de mercadorias. Algo como 25% menos do que o objetivo inicial: 1400 t/unidade.

Infelizmente continuamos a não integrar as variáveis fundamentais (e nem são muitas) no planeamento global das intervenções. A PSA recorda-nos hoje que em 2018 precisa de ter linha competitiva de Mangualde a Vigo. Se as renovações estiverem prontas em 2022 será uma sorte. E mesmo nessa altura vão ver que os 750 metros só com muitos cavalos metidos nas locomotivas...

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