Importam-se de ser adultos?

Política e jornalismo andam de maus dadas - são possivelmente as duas áreas do nosso país em que o output está mais afastado do nível mínimo de competência que deviam apresentar.

Um amigo chamou-me a atenção para a capa de hoje do Público onde o ministro do Ambiente anuncia uma extensão do metro de Lisboa e o Público, certamente procurando a maior correção na abordagem, coloca isto na capa:

O jornalismo e a política interligam-se. A excelência da segunda só será provavelmente possível se o escrutínio, mais do que intenso, tiver qualidade. Em princípio compete ao jornalismo o papel primordial nessa etapa - embora seja cada vez menos óbvia tal preponderância.

"Governo garante rentabilidade" - que raio de chamada de capa é esta? É sequer interessante para o assunto em discussão? Merece contraditório?

Sobre esta questão penso logo em várias perguntas óbvias que deviam ser feitas e, essas sim, são a verdadeira capa para esta notícia:

  1. Há investimentos mais prioritários em transportes no país?
  2. Há investimentos mais prioritários em transportes especificamente na zona de Lisboa?
  3. Que garantia de rentabilidade dá o Governo? Falamos da rentabilidade directa ou da indirecta?
  4. Queremos que o Metro seja rentável com as receitas directas ou admitimos subsidiação?
  5. Quais os prós e contras (e valores envolvidos) na pergunta anterior?

Este caso é apenas mais um caso simbólico de como toda a gente está a infantilizar a discussão seja do que for. A questão na expansão do metro não é por si só se é rentável ou não. O que está a ser dito é para ninguém se preocupar que o investimento paga-se a si mesmo. Mas estamos a falar de se pagar com receitas próprias ou estamos a falar no sentido lato, abrangendo o muito que há de intangível nos benefícios de uma infraestrutura deste género?

Este tipo de facilitismo político-jornalístico impede-nos ainda de ter uma discussão adulta: queremos que os transportes se paguem a si mesmos? Queremos subsidiá-los com impostos? O que ganhamos e perdemos? Rótulos destes só infantilizam e o que precisamos é de gente adulta.

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