Os passes intermodais…. (longo suspiro)

A DECO iniciou ontem uma nova batalha, agora dedicada aos passes intermodais. Diz a Associação de defesa do consumidor que muitas vezes se pagam transportes que não se usam: o exemplo de alguém que por exemplo só ande de autocarro mas o passe paga também o Metro.

Para o comum dos mortais isto parece ser uma crítica (e um pedido associado) com todo o sentido. É aliás o que a nova gestão camarária da Carris vai fazer - refundar o passe monomodal da empresa, mais barato que o atual que junta Carris, Metro e CP, dentro das fronteiras da cidade de Lisboa. O problema é que não pode ser o comum dos mortais a desenhar um sistema tarifário - é até um dos motivos pelos quais a democracia se faz nas instituições próprias e não num café. Pena a Câmara de Lisboa não se aperceber disso, mas isso são outros quinhentos...

É bastante deprimente em 2016 estarmos a ousar discutir a relevância dos passes intermodais e, ainda pior, a pô-los em causa. Vamos por partes.

Esta questão da suposta duplicação de custos para o utilizador só acontece no centro das áreas urbanas mais densas. É, se quisermos, um problema de Lisboa e do Porto. E porquê? Porque fora delas regra geral há pouca sobreposição de diferentes transportes - é por isso norma haverem à disposição passes monomodais e haver um grande recurso a passes intermodais para alargar as possibilidades de mobilidade. Não há sequer possibilidade de sobrepor transportes porque, muitas vezes, já é uma sorte se existir um qualquer.

Logo aqui reduzimos o problema levantado pela DECO a duas áreas particulares: Lisboa e Porto. Nestas áreas de facto paga-se sempre o mesmo independentemente de se usar só um meio de transporte ou ir saltando entre eles. Mas será que é isso que importa?

O que importa, naturalmente, é o que gera custos ao sistema: a distância (e eventualmente o tempo) percorrida na deslocação. No Porto aliás esta questão levantada pela DECO nem faz portanto o mínimo sentido - com o sistema intermodal Andante os passageiros tendem a pagar um preço mais ou menos proporcional à distância. O território está dividido por favos e o que se paga é o número de zonas atravessadas, independentemente do transporte. O custo é sempre o mesmo e não pode ser menor porque já se está a ligar o custo aquilo que o gera - a distância. Numa lógica económica simples isto também justifica porque, mesmo num sistema destes que facilita concorrência, em certos eixos mais densos o Metro acaba por ficar quase sozinho - se o preço do bilhete é igual, naturalmente tenderá a ganhar quota o meio de transporte mais eficiente.

No Porto aliás é possível passar por três zonas e só pagar duas, com um bilhete simples. Se a terceira zona for contígua da primeira mas, por falta de transportes que as liguem por exemplo, for necessário passar por uma terceira em caminho, a pessoa só paga o que efetivamente necessita. O sistema até tem um custo superior na produção daquela deslocação, mas sendo esse custo uma ineficiência própria (falta de ligação directa), não é suportado pelo utilizador.

Ou seja, o que a DECO denuncia só é aplicável em Lisboa - embora infelizmente tenham concentrado a sua contestação a partir do Porto, incompreensivelmente. E se é verdade que em Lisboa pode ser caro demais ter um passe para o Metro (porque traz os autocarros da Carris e os comboios da CP "atrelados"), a realidade é que Lisboa não tem ainda um sistema tarifário verdadeiramente multimodal, baseado na única unidade verdadeiramente universal para estabelecer preços - a distância.

No fim de contas a batalha terceiro-mundista contra passes intermodais que a DECO promove é, na realidade, uma chamada de atenção para algo bem mais importante: apesar de décadas de discussão, em Lisboa existe uma boa parte das deslocações cuja tarifa continua totalmente desligada da distância correspondente, sendo um valor meramente arbitrário. O que está mal não é a "obrigação" de poder usar transportes diferentes - mal estaríamos se isto fosse um problema. O que está mal é o tarifário não ser transparente nem geograficamente justo.

 

PS: Relevante como uma vez mais a comunicação social ouve acriticamente uma proposta / reclamação e tudo o que acha que tem a fazer é ir para terminais de transportes perguntar se as pessoas usam só um ou mais transportes - sem investigação própria, sem contraditório. Estes cursos saem em que pacote de cereais?

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