Soares, o único político português que foi global

A imagem dos últimos anos de Soares não abonam a favor - especialmente para quem é mais novo pode não entender a exata dimensão do vulto político que vimos hoje desaparecer.

Mário Soares foi o único político português que foi verdadeiramente global e dos poucos que não só emanou como influenciou claramente uma parte importante da "aristocracia" social democrata europeia, como o prova aliás muito sólidas referências que ainda hoje se mantêm por exemplo em França.

Podemos falar da "pequena" gestão política. Dos desaires governamentais onde um certo desprezo pelos pormenores lhe trouxe dissabores a mais, um estilo monárquico de exercício da presidência e muitas vezes uma prepotência visível nos famosos encontros com a GNR ou na forma como por vezes defendeu tudo e o seu contrário ao sabor das pessoas que estavam do outro lado. Só que isso é comentar o normalzito. O banal. Aquelas coisas que nos entretêm em todos os ciclos políticos.

Mário Soares ganhou o lugar de mais proeminente político português do século XX porque não só teve a visão suficiente para propor as mais relevantes alterações institucionais do nosso país mas, ainda mais, porque teve a força e a coragem de não abdicar delas por nenhum preço. Do homem que lutou contra um Estado Novo de curta visão e de falta de liberdade, que não hesitou no pós-revolução na opção pela democracia liberal contra a ditadura do proletariado com que Cunhal e os soviéticos sonhavam e que percebeu que depois dos períodos coloniais e imperialistas o lugar de Portugal era com os parceiros europeus.

Cabe tudo num parágrafo mas foi absolutamente extraordinário - só ao alcance dos maiores estadistas. Lia hoje no Observador que Soares é uma espécie de Churchill português. No corriqueiro, no quotidiano, somou erros atrás de erros (o pior foi sem dúvida a crença que a descolonialização seria mais fácil do que foi), mas o que a história escreverá é que foi o líder político que, mais que nenhum outro, ergueu um muro contra o Comunismo e, não satisfeito, acelerou a nossa entrada na então CEE, onde aliás manteve sempre um ascendente importante visível na forma como foi acolhido no Parlamento Europeu anos mais tarde.

Pode-se falar de detalhes mas Soares foi fundamentalmente um homem de grandes metas. Essas metas alcançadas permitiram-nos trocar efetivamente uma ditadura por uma democracia liberal (a brincadeira burguesa segundo o PCP) e abrirmo-nos à Europa e ao Mundo sem complexos e cientes da nova etapa da nossa história. Porque poucos políticos na história mundial conseguem protagonizar tão importantes conquistas, Soares foi o único político português verdadeiramente global.

Que descanse em paz pois é muito à sua conta que nós todos podemos dormir com alguma tranquilidade no nosso dia-a-dia.

Deixar uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *