Marcelo e o erro de paralaxe

Toda a ação presidencial de Marcelo Rebelo de Sousa é conduzida com sobrevalorização de alguns pontos:

  • Proximidade das pessoas (vulgo selfies, abraços, beijinhos e conselhos de medicação);
  • Proteção política do espectro que não o elegeu.

A lógica subjacente é, um pouco à semelhança de Guterres na sua época como PM, que toda a gente goste dele. Que seja o mais popular, o mais apoiado e o mais consensual. A descripação é em torno da sua figura - basta ver o estado económico do país ou o parlamento indecoroso que vamos presenciando a cada debate. E ele convence-se, um pouco como o Rei Sol, que o regime é ele, e se à volta dele tudo está calmo, então o país está calmo.

Marcelo, o analista político, não deixaria certamente de fazer notar o erro de Marcelo, o Presidente (ou Indigente) da República. De facto, este comportamento abrasivo de Marcelo - já tentou depor a oposição, passa por cima das instituições para assegurar direitos privados (Cornucópia, Santoro e, mais recentemente, António Domingues) e fecha os olhos à absoluta anormalidade parlamentar que temos - é justificado por uma crença de que, quando for mesmo necessário atuar (para ele anormalidade institucional não é campo de atuação do PR...), quanto mais apoio popular tiver mais capacidade de influenciar terá - na realidade, acredita que esse é o caminho para ser ele o chefe de Governo, como se estivéssemos em França.

Só que Marcelo lavra sobre um pressuposto errado: o da descrispação e da despolarização da nossa política. Não é verdade, tudo é condicional.

O eleitorado de Direita (que, nas sondagens, se mantém praticamente à décima no nível que teve nas eleições) começa a não aturar a ação de Marcelo - mais do que não aturar a irrelevância dos actos, começa a surgir desconforto pela sua incarnação de elefante na loja de porcelanas. E esse é o seu eleitorado natural e fiel - o que, apesar das circunstâncias, sempre estará tendencialmente mais com ele do que com outro.

À esquerda Marcelo não vai ter nada garantido - se atualmente goza de enorme popularidade é pela circunstância de apoiar um Governo que está a satisfazer a sua imensa clientela - funcionários públicos, pensionistas, elites culturais / mediáticas, entre outros. Todos eles têm uma relação pecuniária clara com o Governo, de que usufruem, e é essa a condição para quererem Marcelo.

Contrariamente ao que pensa o Presidente, no dia em que tiver de ir contra um governo que, sacrificando tudo à sua volta, mantém a dependência feliz de toda a sua imensa clientela, essa clientela não o defenderá a ele mas sim ao Governo que os satisfaz. Na realidade, ao procurar alargar a sua base para poder ter mais poder, Marcelo em termos práticos está a reduzi-lo de forma colossal.

Que Marcelo, o analista, ainda não tenha explicado isto a Marcelo, o Presidente, é a grande estupefação do primeiro ano de mandato.

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