800 milhões depois

Em 2019, Espanha fará chegar às nossas fronteiras as vias ferroviárias do futuro. Na fronteira Norte, em Tuy, será eletrificado o que falta da linha de ligação a Vigo. Apta a 140 km/h, a linha liga em Vigo com a rede de alta velocidade espanhola. Em Vilar Formoso será modernizada e eletrificada a linha até Salamanca, ficando apta a 200 km/h. Por fim, em Badajoz, será concluída a linha de alta velocidade até Plasencia, de onde os comboios seguem depois na linha convencional até Madrid, já apta a 200 km/h.

Nessa altura, as principais características das ligações junto à nossa fronteira serão:

  • Minho: Percurso Valença - Vigo em 30 minutos, Valença - Corunha em 1h50. Velocidade máxima de 250 km/h e até 1.500 toneladas por locomotiva (tipo standard, exemplo CP 4700);
  • Beira Alta: Percurso Vilar Formoso - Salamanca em 40 minutos, Vilar Formoso - Madrid em 2h15. Velocidade máxima de 200 km/h e até 1.600 toneladas por locomotiva;
  • Leste: Percurso Badajoz - Cáceres em 40 minutos, Badajoz - Madrid em 3h30, Velocidade máxima de 200 km/h e até 1.600 toneladas por locomotiva.

Em 2021, tomando por boa a data de fim das obras que se iniciarão na Beira Alta, Minho e Elvas, Portugal terá:

  • Minho: Percurso Valença - Porto em 1h30. Velocidade máxima de 140 km/h e até 1.100 toneladas por locomotiva;
  • Beira Alta: Percurso Vilar Formoso - Mangualde em 1h30, Vilar Formoso - Coimbra em 2h30. Velocidade Máxima de 100 km/h (pontuais troços a 120 e 160 km/h) e até 1.040 toneladas por locomotiva;
  • Leste: Percurso Badajoz - Évora em 40 minutos, Badajoz - Lisboa em 2 horas. Velocidade máxima de 220 km/h e até 1.500 toneladas por locomotiva.

Como se vê, apenas a realização da linha Évora - Badajoz permitirá aproximar os standards com os vizinhos ibéricos, seja numa óptica de velocidade ou de rentabilização do tráfego de mercadorias.

No Minho, a censurável intervenção de cosmética com a simples aplicação da eletrificação fará os comboios demorarem mais de Valença ao Porto do que de Vigo à Corunha - do lado espanhol são ainda mais 70 quilómetros de percurso. Um comboio de mercadorias que venha de Espanha a aproveitar a carga máxima autorizada terá de percorrer a linha do Minho dividido em dois ou com duplicação dos meios de tração.

Na linha da Beira Alta, onde se vão gastar 800 milhões de Euros na renovação do traçado existente e pondo de lado a opção por um traçado novo, o cenário é bem pior. De Madrid a Vilar Formoso vai-se demorar menos do que de Vilar Formoso a Coimbra. Será metade do tempo necessário para chegar a Lisboa, para uma distância muito semelhante! Na carga a diferença será ainda maior do que no Minho, constatando-se a mesma necessidade de partir as composições em duas ou de reforçar os meios de tração, bastante caros e com custos energéticos elevados associados.

Este é o retrato real quando falamos de supostos planos ambiciosos de investimento em ferrovias. Haja algum decoro. O Ferrovias 2020, Évora - Badajoz à parte, colocará os nossos caminhos de ferro no ano de 1970, de um ponto de vista de performance. É uma evolução, mas continuamos a atrasarmo-nos face aos nossos parceiros europeus...

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