2013 – 2017: e a CP não foi mais a mesma

O término do mandato de Manuel Queiró na CP (na realidade estava em gestão desde 31-12-2015...) é um bom momento para ensaiar uma primeira revisão do que foi o seu mandato à frente dos destinos da operadora ferroviária.

A CP é hoje muito diferente da que Queiró encontrou, enterrada em dúvidas existenciais, sufocada pelos apertos financeiros do país e com décadas de decadência institucional que eram indisfarçáveis. Confesso que na altura poucas expectativas tinha para a nova equipa - afinal de contas a CP vinha sendo uma mera porta para um alargado leque de boys dos principais partidos portugueses. De forma mais ou menos empenhada a realidade é que nunca pareceram querer mais do que ir gerindo o dia-a-dia.

Quatro anos volvidos o mesmo não se pode dizer da administração cessante. A mais elementar justiça torna fundamental reconhecer o que mudou. Não foi propriamente nenhuma decisão de investimento (o dinheiro para isso parece que só vai aparecer em 2018) ou alguma decisão pontual sobre a gestão da companhia. Pelo contrário, a maior marca do mandato de Manuel Queiró foi, pela primeira vez desde o início dos anos 1990, ter colocado a CP no terreno, aguerrida e à procura dos seus clientes.

Era impensável há 5 anos atrás ter a CP a lançar spots publicitários a concorrer directamente com a Ryanair, a expandir os charters para grupos ou a lançar novos produtos turísticos com a prata da casa. Novamente, mais do que meras decisões do momento isto foi um comportamento de rutura com um passado recente de grande reverência para com um destino aparentemente traçado.

A paz social conseguida foi notável numa empresa que acumulava greves e que pelo meio até se desfez da CP Carga num processo que acabou por ser também bastante tranquilo.

Claro que o crescimento contínuo acima dos 10% ao ano no segmento mais valioso - o Longo Curso - não é conseguido apenas e só à custa das ações próprias da CP. O turismo fundamentalmente nos últimos dois anos também ajuda a explicar muito do dinamismo da CP. Mas a justiça força-nos a reconhecer que o dinamismo comercial foi anterior e operacionalmente a empresa foi capaz de, por fim, se comportar como uma empresa de transportes moderna e fundamentalmente interessada em por os seus activos circulantes a rolar. A circular mais horas, a ficar menos tempo nas oficinas, a estar mais disponível.

Só assim foi possível ganhar tanto sem qualquer investimento em material circulante. Um dos resumos deste mandato pode ser feito da seguinte maneira: quando Queiró entrou a CP tinha uma frota excedentária e quando sai a mesmíssima frota está completamente esticada e esgotada na sua capacidade. Ao accionista competirá dar à companhia aquilo que a empresa nos últimos anos fez por merecer até porque a mudança de mentalidades parece ser hoje uma realidade em boa parte da estrutura da CP.

A quem chega só posso desejar a maior sorte. O futuro da CP não tem que ser necessariamente uma fatalidade, mesmo com a liberalização do mercado no horizonte para 2020. A operação ferroviária à portuguesa pode dar cartas, assim tenha linhas de qualidade e algum investimento para ir acompanhando as necessidades dos seus clientes.

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