A morte anunciada

Num texto com tanto para dizer, vou tentar não reproduzir o que é do conhecimento de todos para lá do estritamente necessário para o enquadrar.

Basicamente estamos perante este furacão que é o caso dos emails do SLB. Não vi ainda nada que aponte para corrupção desportiva no futebol profissional, mas vi sim:

  • Corrupção nos processos de chamada às seleções jovens;
  • Uma teia de influências diversas - umas com gente que nunca conseguirá influenciar nada, outras que deixam dúvidas a esse nível - com o suposto objetivo de parar tentativas de terceiros de influenciar negativamente os resultados do Benfica. Para mim é muito pouco claro onde está a linha que separa esta benévola intenção do benefício próprio injustificado;
  • A extrema sabujice da estrutura do Benfica, onde pessoas como Pedro Guerra, Rui Gomes da Silva e Paulo Gonçalves são mais do que meros operacionais: são as pessoas que imaginaram a ideia saloia (e sabuja) do presidente de querer mais garantias de êxito do que as que os plantéis podem dar à partida;
  • É evidente que podendo muita coisa ser manipulada, ninguém andou a gerar GBs e GBs de emails e que eles serão, na sua maioria, verdadeiros.

Repito que nada aponta ainda para corrupção no futebol profissional mas não posso deixar de assumir que me parece bastante provável. É um momento fundamental de reflexão também porque durante anos muitos como eu apontámos a entrada e a influência de pessoas no Benfica que eram obviamente tóxicas. Paulo Gonçalves era uma personagem duvidosa da esfera do Boavista nos tempos do Apito Dourado, Pedro Guerra um especialista em contra-informação da escola Paulo Portas, Rui Gomes da Silva um homem de recados e de vaidades, e podia ainda continuar para muitos sem qualquer ligação emocional ao clube que foram sendo vendidos como os génios do profissionalismo e da evolução do Benfica.

Os fenómenos populistas e manipulativos que têm permitido a Vieira apoderar-se do clube, a ponto do poder dos sócios ser hoje tão ou mais diminuto do que em clubes efetivamente comprados por magnatas, permitiram que a massa associativa praticamente sem exceções fosse tolerando os maiores sabujos. Alguém alguma vez esperou diferente de Pedro Guerra ou Paulo Gonçalves? Ou, indo mais atrás, de João Gabriel? Não gozem comigo. Temos vivido todos na esperança que esta comandita siciliana pudesse, em lugares altos, não dar largas ao que sempre foi a sua vida. Mas na realidade mais não era do que uma esperança, todos os dados minimamente objetivos apontavam noutra direção.

Todo este caso é fundamental e estou certo que será encontrado mais do que já se sabe. O que já se sabe não é ainda tão grave como os adeptos rivais fazem querer mas eu tenho sérias dúvidas que seja tudo o que há para ver e, por isso, muita precaução nas minhas expetativas. Sendo certo que, se esta pandilha fez em nome do Benfica algo mais grave, parece-me lógico e sensato que o Benfica desça de divisão e pague por isso. Caso contrário, e sem prejuízo de algum julgamento que já se impõe sobre a sabujice reinante, é óbvio que o Benfica deve ser ressarcido. Mas aqui estamos no domínio do senso comum.

Este caso é apenas mais um num futebol nacional que, pós Apito Dourado, não apenas se regenerou como espalhou franchises de influências. O Porto deixou de ser todo poderoso mas não por ter baixado a guarda, mas sim porque outras ferramentas foram encontradas por outros clubes, em grande medida com terrorismo comunicacional à mistura, território onde os jornais desportivos se movimentam particularmente bem pois é, cada vez mais, a chave da sua sobrevivência.

As teias de empréstimos dos clubes grandes são a face mais visível, um prato onde Benfica, Porto e Sporting se refastelam todos os anos, negociando compras de votos em assembleias da Liga e até resultados no campo. O ano passado foi pública uma vingança contra o Vitória de Setúbal ter vencido um jogo e já este ano o mesmo clube publicamente ameaçou clubes que votassem contra si nas Assembleias. Uns anos antes um seu vice-presidente coagiu um fiscal de linha, sendo curiosamente separada a sua ação do cargo que titulava. Entretanto o Benfica B escapou-se a uma despromoção graças a um golpe de teatro de secretaria envolvendo um seu ex-jogador, já no Farense, clube que assumiu as despesas da descida num processo nebuloso ainda sem explicação. Mas não é tudo. O Porto conseguiu a despromoção de um árbitro às claras no ano passado. Um princípe nigeriano do mercado de apostas tem um clube da 1ª Liga e resultados combinados na 2ª Liga parecem hoje uma naturalidade, é certo que sob investigação. Agora essa suspeita passa rapidamente para a 1ª liga.

Tudo isto são sintomas de um futebol onde o poder não caiu na rua após o Apito Dourado, mas em que se espalhou de forma mortal. A reforma que o futebol não conheceu foi trocada por um reforço de estratégias de poder que são, no fim da linha, as estratégias dos presidentes que, como caciques, pretendem controlar o sucesso desportivo para deixarem de ter a única incerteza que têm na vida - o seu próprio lugar.

O futebol português tem hoje um campeonato em queda livre nos rankings europeus e um futuro cada vez mais negro mercê do fenómeno de globalização inelutável por que passa também esta indústria e que me levou já a defender por várias vezes a urgente necessidade de nos agruparmos numa liga Ibérica ou mesmo em ligas Europeias com 2 ou 3 divisões. A prazo, num pais onde só 4 ou 5 clubes têm massa adepta, nem clubes como Benfica ou Porto terão sequer a menor hipótese de disputarem alguma atenção no palco europeu. Não embarcando em soluções que permitam contrariar a inevitabilidade da polarização global no nosso caso específico, o futebol nacional já estaria sempre condenado a ser tão importante como o holandês ou o cipriota.

Estando o futebol nacional entregue aos clubes, estando os clubes reféns do poderio dos três grandes e estando os três grandes conquistados por máquinas poder unipessoal, não é sequer possível discutir soluções reais para o futebol por cá. E dou um exemplo claro, em contra-ciclo com o post até aqui: as transmissões televisivas. O primeiro clube nacional a avançar com proposta para centralizar os direitos foi o Benfica, há muitos anos já. Nas lógicas de trincheira que prevalecem, ficou sozinho. Entretanto, no que continuo a achar que é uma magistral jogada de gestão, o Benfica acabou por pressionar a correção de uma falha de mercado com a introdução da BTV e dos jogos por si televisionados. Isso permitiu pelo menos trazer um espectro de concorrência de que todos os clubes têm beneficiado, com revisões em alta dos seus valores de TV e promovendo um modelo de conteúdos discutido desde logo pelas plataformas de distribuição de TV. O que se tenta fazer hoje? Proibir a BTV de transmitir jogos, curto e grosso. Não se tendo trabalhado para resolver nenhum problema de fundo, isso significará um passo atrás na indústria e nas próximas revisões os valores voltarão a cair, indubitavelmente. É um exemplo onde não deixo de ver um papel brilhante que o Benfica jogou mas onde as trincheiras impedem que, daqui, se caminhe para a evolução em vez da mera lógica destrutiva e revogativa.

Acresce a tudo isto o triste espetáculo de vermos um futebol dominado por diretores de comunicação, assessores, comentadores avençados e jornais desportivos cuja única função é amplificarem a novela que os protagonistas alimentam em proveito próprio. Neste ponto estamos já a descer o patamar para uma reputação próxima da da Argélia ou da Albânia, campeonatos tão famosos pela sua integridade e interesse desportivo.

A imensa lama que vemos no futebol nacional mais não é o resultado do que se ignorou nos anos 90 e do que de forma coxa se penalizou mais tarde quando a sua influência era aliás já bastante diminuta. Entre a necessidade de reduzir a exposição no FC Porto e a desgraça em Alvalade, o Benfica reuniu-se dos seus piores - Pragal Colaço merece uma menção especial pelo seu papel estratégico no projeto de poder de Vieira, curiosamente depois de ter ameaçado que contra ele concorreria.

Importa muito pouco discutir quem tem mais ou menos culpa neste estado de coisas. No que a mim me diz respeito, e ao meu Benfica, é certo que a instituição está hoje muito mal tratada e sem defesa à altura. Os sabujos que ali habitam há cerca de 10 anos asseguram que nunca terá a defesa enérgica que mereceria. Muitos adeptos, quais galinhas a quem cortaram a cabeça, preenchem desesperadamente redes sociais e outros espaços com coxas argumentações que vão desde a negação pura e simples de que alguém no Benfica pudesse perpretar crimes ou à desvalorização formal do que está exposto, certamente com saudades do que criticaram anos antes nos adeptos de Porto e Sporting em casos mais ou menos graves.

Com ou sem razão, o Benfica está hoje manchado na sua reputação como nunca antes. O que um benfiquista sério faria seria a imediata demissão e a passagem para tribunais para defender o seu nome e o da sua gestão. A atual gestão do Benfica ou não é Benfiquista ou não é séria - podendo até existir acumulação. Porque ou realmente protagonizaram muita indecência legalmente punível e estão a ver se isto passa ou não são Benfiquistas e não se interessam minimamente em separar as águas entre a sua reputação e a do clube que dirigem.

Nada disto tem de afetar nenhum Benfiquista com cabeça no lugar. Andaremos sempre de cabeça levantada até porque nunca acreditámos em Pedro Guerra só por ter sido aconselhado pela direção nem nunca deixámos de ver o passado sombrio de Paulo Gonçalves só por estar agora ao serviço do nosso clube. O orgulho de nunca ter sido comprado na opinião e de não aceitar como normal que isso possa ser feito com outros. O orgulho de nunca ter apagado a linha dos valores morais defendidos e de nunca ter aparecido ao lado desta escória intelectual é, em si mesmo, ser Benfica. E esse sentimento continuará seja o que for que estes titulares de órgãos sociais e outros possam ter feito à frente do nosso clube.

Terminando num aspeto desportivo concreto: eu publicamente defendi que o Apito Dourado foi um caso grave de corrupção em tempos em que essa corrupção não teve efeitos práticos, contrariamente a tudo o que se ignorou nos anos 80 e 90. Independentemente do que possa vir a ser confirmado e do que vier a ser desmentido, não vi nos últimos anos os grandes resultados nacionais a divergirem do que foi a prestação desportiva das equipas envolvidas. Defendi isso mesmo na época em que perdemos o título com algumas arbitragens ranhosas (como a do famoso golo do Maicon) e defendo com igual frontalidade em benefício do meu clube. E neste plano quem souber ver melhor o que se passa em campo estará sempre mais perto de ganhar amanhã, com ou sem limpeza nesta imundície que é o nosso futebol.

Como nada desta lama tem que ver com a minha forma e vontade de ver o futebol, este é o primeiro e último post sobre estes assuntos. Neste longo texto está a minha opinião definitiva sobre o que é conhecida e a perspetiva com que analisarei novidades, onde espero sempre ser inclemente e frontal, vão elas numa direção ou noutra. Os fanáticos que continuem, estão no bom caminho. De mim terão silêncio e alheamento.

2 Comments:

  1. Concordo com quase tudo, menos na parte em que levantes duvidas sobre compra dos resultados/árbitros, a campanha orquestrada contra nós serve mesmo para isso, compreendo. Depois do que o Vieira andou a lutar no apito dourado duvido que fosse praticar o que andava a denunciar e digo isto estando contra esta personagem, que o único crime que comete e andar a meter dinheiro do Benfica ao bolso. Pelo que li, pensei que a “estrutura” até é muito anjinha, estava a espera de bem pior…

    Para finalizar, vejo muitos adeptos a pedir mais reacções / defesa do Benfica etc etc, mas o que querem que o clube/LFV faça?? já por várias vezes negaram as acusações que temos sido alvo, que querem que façam mais?? Isto agora é a palavra do clube contra quem fez as acusações e para vermos quem tem razão só quando sair a investigação da PJ… se o Benfica tem a consciência que não fez nada de mal e não tem medo de investigações é pq está certo que não cometeu nenhuma ilegalidade e por isso está tranquilo em relação a tudo isto…

    Acho piada andarem a pedir defesas em que seja a denuncia dos jornais/ jornalistas avençados que andam a manchar o Benfica? Mas vamos fazer isso sem provas, para levarmos com processos em cima? Isso era adoptar a postura que os outros andam a fazer, enfim…

    Bom ano para ti gostei de ler opinião. A minha maior esperança é que se descubra o porque de algumas negociatas e que o LFV seja corrido do clube.

  2. Parabéns pela lucidez, tão rara no fanático mundo futebolístico. É exactamente pela abundância de gritaria sem nexo, do abdicar de inteligência no discurso futebolístico, que cada vez menos vejo ou discuto futebol. Há gente que me surpreende pela negativa sempre que fala do seu clube.
    Subscrevo na íntegra o que escreves relativamente ao Benfica. Tenho pena que o clube se afaste da sua tradição democrática, marca que estes “galos no poleiro” desprezam para proveito próprio. Mas enfim, há ainda uma réstia de esperança.

    Abraço

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